Ubuntu: Além do Desktop – Parte 1 – Contextualização

Ubuntu: Além do Desktop – Parte 1 - Contextualização

Na última versão LTS do Ubuntu, a 16.04, uma nova funcionalidade vem intrigando muita gente: o gerenciador de instalações Snappy. Por que raios querem inventar um novo gerenciador de pacotes e instalador, quando já existe o tradicional apt que atende muito bem às necessidades e já é de conhecimento de todos?

Essa dúvida é mais que pertinente no universo em que a maioria de nós está, que é o do Desktop.
Mas se ampliarmos o campo de visão e incluirmos os novos padrões sendo produzidos para a computação em nuvem e para a Internet das Coisas, o Snappy começa a adquirir um outro sentido.
Tanto na computação em nuvem quanto na Internet das Coisas, dois fatores estão sobressaindo, tanto como um problema quanto como uma oportunidade para novos desenvolvimentos: escalabilidade e segurança.
Escalabilidade é a capacidade de administrar, de preferência, de forma o mais simples e eficaz possível, um número flutuante de dispositivos e recursos que vão sendo conectados e desconectados entre si.
Segurança, no contexto destes novos padrões, é a capacidade de conseguir lidar, de forma o mais simples e eficaz possível, com um grande número de potenciais portas de entrada de todo o tipo de ameaça digital.
É importante ressaltar o que há de comum nestes dois fatores: tanto na nuvem quando na Internet das Coisas, nos deparamos com um aumento exponencial de dispositivos computacionais. Na nuvem, esse aumento se refere a um número expressivo e sempre crescente de máquinas virtuais, sem contar, claro, as máquinas físicas que dão suporte à virtualização. Na Internet das Coisas, o aumento pode levar a um número que as previsões mais conservadoras colocam na casa dos bilhões de dispositivos.
Considerando que todos esses dispositivos, virtuais e físicos, provêm dos mais diversos fabricantes de hardware e software, e estão todos conectados entre si, fica mais fácil de vislumbrar os desafios técnicos em termos de gestão e segurança.
É neste contexto que vejo o posicionamento atual da Canonical: mais do que apenas ser o criador do Ubuntu, e mais recentemente, do Ubuntu Phone, a empresa parece querer se posicionar como player global no universo da computação em nuvem e da internet das coisas.
E é aqui que surge o Snappy, no lado do Desktop, e o Ubuntu Core Snappy, no lado dos dispositivos embarcados e computação em nuvem: possibilitando a instalação rápida e segura de aplicações como blocos isolados e contendo todas as bibliotecas necessárias, os requisitos de segurança e escalabilidade são atendidos para o novo paradigma computacional que está se consolidando.
Neste sentido, aquilo que aos olhos de muitos usuários soa como um certo “abandono” do Ubuntu por parte da Canonical (que supostamente agora só quer saber de Ubuntu Phone ou computação em nuvem), talvez possa ser visto de outra forma.
Trata-se talvez de querer aproveitar um ponto de mudança de paradigma na computação para conseguir estabelecer uma presença significativa entre tantos outros players, muitos deles de peso muito maior, nessa nova configuração que ninguém sabe ao certo como será. E isso, em última análise, significa não só colocar a Canonical na frente, mas de um modo mais geral, o software livre, o Open Source e o Linux.
Neste sentido, talvez fique mais claro o motivo do “abandono” do tradicional Ubuntu (o nosso Ubuntu, o Ubuntu para Desktop) em prol de um conceito mais abrangente de Ubuntu, que abarque não só Desktops, mas também todo tipo de dispositivo computacional e arquitetura. Isto fica mais evidente quando vemos, por exemplo, que a Canonical abandona o seu Software Centre em prol do Gnome Software Centre: para quê dispender esforços em melhorar uma ferramenta que só vai atender aos desktops, quando já existe uma funcionando, e quando os desktops deixam de ser o principal dispositivo computacional para ser apenas mais um, num universo de máquinas virtuais, smartphones, drones, roteadores, etc, etc..?
Ainda que nós usuários tradicionais de desktops com Ubuntu sintamos que o padrão de qualidade e tempo de resposta da Canonical tem deixado a desejar, visto à luz deste posicionamento estratégico mais amplo, passa a fazer mais sentido, se pensarmos que o que está em jogo é não só a Canonical mas o próprio modelo do software livre, do Open Source e do Linux.
A Canonical vai abandonar o Ubuntu tradicional que nós usamos? Não creio. Além de ser o marco zero da empresa, desktops continuam a ser uma peça importante nessa ecologia de máquinas diversas em rede. Mas é clara a intenção da empresa em delegar mais à comunidade a responsabilidade pela manutenção desse Ubuntu.
Quero muito ter, em breve, uma alternativa aberta e mais livre para o meu smartphone, e quero ter, no futuro, todos os aparelhos que estão anunciando por aí, mas com um padrão que eu possa gerenciar e alterar, e não delegar a grandes corporações esse papel. Para isso, torço para que os esforços da Canonical frutifiquem, mesmo que eu tenha que aturar um certo abandono com o meu velho Ubuntu para Desktop.

Colaboração para a nossa comunidade pelo Gustavo Loureiro.

Sobre o autor:
Bacharel em Ciência da Computação pela UFRJ
Trabalhou como programador e analista de sistemas em empresas do setor bancário, telecomunicações e serviços por vinte anos, em mainframes IBM.
Trabalha atualmente na área de TI do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro, é técnico de computadores e redes domésticas e adepto incondicional do Linux.

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