O dia em que Edward Snowden se apresentou ao mundo – Parte 2

O dia em que Edward Snowden se apresentou ao mundo - Parte 2

Confira abaixo a parte 2 da série de postagens, “O dia em que Edward Snowden se apresentou ao mundo”, lembrando que é recomendado a leitura da Parte 1 antes de prosseguir.



Snowden passou a dar respostas concisas, firmes e racionais para cada pergunta: Por que decidiu revelar esses documentos? Por que isso era tão importante para ele ao ponto de sacrificar a sua liberdade? Quais foram as revelações mais importantes? Havia algo criminoso ou ilegal nos documentos? O que achava que aconteceria com ele? À medida que dava exemplos de espionagem ilegal e invasiva, mostrava-se mais animado e veemente. Só demonstrou algum desconforto quando perguntei sobre as possíveis repercussões, temendo que o governo retaliasse a sua família e namorada. Dizia que, para reduzir o risco, evitava entrar em contato com eles, mesmo sabendo que não podia protegê-los de tudo. “Isso é o que me mantém acordado à noite, o que poderá acontecer com eles”, disse com os olhos cheios de lágrimas, a primeira e única vez que o vi assim.

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A cada dia que passava, as horas e horas que estávamos juntos acabaram criando um vínculo cada vez mais forte. A tensão e o desconforto do primeiro encontro haviam se transformado em uma relação de colaboração, confiança e propósito comum. Sabíamos que havíamos protagonizado um dos eventos mais importantes das nossas vidas.
O clima de ânimo relativamente mais relaxado do que havíamos conseguido manter nos dias anteriores deu lugar a uma ansiedade palpável: faltavam menos de 24 horas para que a identidade de Snowden se tornasse conhecida, o que, na opinião dele, implicaria uma mudança total, especialmente para ele. Todos nós, os três, havíamos vivido uma curta experiência, mas extremamente intensa e gratificante. Um de nós, Snowden, logo deixaria o grupo, talvez porque seria preso por um longo período – uma possibilidade que esteve na mente desde o início, espalhando desânimo, pelo menos da minha parte. Só Snowden não parecia preocupado. Agora, entre nós, fluía um humor negro selvagem.
Em Guantánamo vou pedir a cama de baixo, brincava Snowden enquanto ponderava sobre as nossas perspectivas.
“Em Guantánamo vou pedir a cama de baixo”, brincava Snowden enquanto ponderava sobre as nossas perspectivas. Quando falávamos de reportagens futuras, dizia coisas como “isso vai provocar uma acusação. O que não sabemos é se será contra vocês ou contra mim”. Mas quase sempre ele estava muito tranquilo. Mesmo agora, com o relógio de sua liberdade ficando sem corda, Snowden ia se deitar às 22h30, como fez todas as noites que estive em Hong Kong. Enquanto eu mal podia dormir um par de horas, ele era sistemático com as suas. “Bem, eu vou para a cama”, anunciava todas as noites antes de iniciar o seu período de sete horas e meia de sono, para aparecer no dia seguinte totalmente descansado.
Às 14h de domingo, 9 de junho de 2013, no horário oriental, o The Guardian publicou a reportagem que tornaria pública a identidade de Snowden: “Edward Snowden: o delator das revelações sobre a vigilância da NSA”. O texto contava a história de Snowden, revelava as suas motivações e proclamava que ele “entrará para a história como um dos reveladores de segredos mais importantes da América do Norte, juntamente com Daniel Ellsberg e Bradley Manning”. O artigo citava um antigo comentário que Snowden tinha feito para mim e Laura: “Eu sei muito bem que vou pagar pelos meus atos… me sentirei satisfeito se a federação da lei secreta, a indulgência sem igual e os irresistíveis poderes executivos que regem o mundo que amo ficarem expostos, mesmo que por um momento”.

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A reação à reportagem e ao vídeo foi de uma intensidade que eu jamais havia visto como escritor. No dia seguinte, no The Guardian, o próprio Ellsberg destacava que “a publicação do material da NSA por parte de Edward Snowden era o vazamento mais importante na história norte-americana, incluindo, naturalmente, os papéis do Pentágono 40 anos atrás”.
Só nos primeiros dias, centenas de milhares de pessoas compartilharam o link da reportagem na sua conta no Facebook. Quase três milhões de pessoas assistiram à entrevista no YouTube. Muitas mais assistiram no The Guardian online. Uma porção esmagadora das reações refletia comoção e força inspiradora diante da coragem de Snowden.

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