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O dia em que Edward Snowden se apresentou ao mundo parte 5 – Final

O dia em que Edward Snowden se apresentou ao mundo parte 5 - Final
Confira abaixo a parte 2 da série de postagens, “O dia em que Edward Snowden se apresentou ao mundo, lembrando que recomendamos ler a Parte 1, Parte 2, Parte 3 e a Parte 4 antes de prosseguir. 
Passados alguns minutos, os advogados deixariam o hotel sem serem vistos, como o esperado. O plano funcionou. Depois de uma conversa de 30 minutos com Gill em um centro comercial ligado ao hotel, voltei para o meu quarto e liguei impacientemente para o celular de um dos advogados.
“Conseguimos retirá-lo um pouco antes de os repórteres começarem a aparecer na recepção”, explicou. “Combinamos com ele em seu quarto”, o mesmo em que Laura e eu estivemos com ele antes. “Então nós cruzamos uma ponte que levava a um centro comercial adjacente e fomos para o carro que nos esperava. Agora, ele está com a gente”. Aonde vão levá-lo?


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“Não vamos falar sobre isso por telefone”, disse o advogado. “No momento ele está em segurança”.
Saber que Snowden estava em boas mãos me deixou mais calmo, embora soubéssemos que provavelmente não iríamos mais ver ou falar com ele, pelo menos não como um homem livre. Achamos que talvez, na próxima vez, o veríamos na TV, com um macacão laranja e algemas, em um tribunal norte-americano, acusado de espionagem.
Enquanto eu assimilava a notícia, a campainha da porta tocou. Era o gerente do hotel. Ele veio me dizer que o telefone não parava de tocar com pessoas pedindo o número do meu quarto (eu havia deixado instruções na recepção para que bloqueassem todas as chamadas). No hall de entrada também havia uma multidão de repórteres, fotógrafos e cinegrafistas esperando por mim.
A primeira coisa que fiz foi entrar na Internet com a esperança de saber algo de Snowden. Ele apareceu online poucos minutos depois. “Eu estou bem”, me disse. “Neste momento, em uma casa segura. Mas não sei até que ponto é segura, nem quanto tempo vou ficar aqui. Vou ter que mudar de lugar para outro e meu acesso à Internet não é confiável, então não sei quando ou quantas vezes eu vou estar online”.
Comecei a notar certa relutância dele em me dar detalhes sobre a sua localização e não quis perguntar. Eu sabia que a minha capacidade de averiguar coisas sobre seu esconderijo era muito limitada. Agora ele era o homem mais procurado pelo país mais poderoso do mundo.
O Governo dos EUA já havia pedido para a polícia de Hong Kong detê-lo e entregá-lo às autoridades norte-americanas. Por isso, conversamos breve e vagamente, e manifestamos o desejo comum de continuar em contato. Pedi que ele atuasse com prudência.
Quando finalmente cheguei ao estúdio para as entrevistas aos programas Morning Joe e The Today, percebi imediatamente que o teor das perguntas havia mudado consideravelmente. Em vez de me tratarem como jornalista, os apresentadores preferiram atacar um novo alvo: o Snowden de carne e osso, não um personagem enigmático de Hong Kong. Muitos jornalistas norte-americanos voltavam a assumir o seu papel habitual a serviço do Governo.
A história já não era mais sobre uns repórteres que haviam trazido à luz graves abusos da NSA, mas sobre um norte-americano que, enquanto trabalhava para o Governo, havia “violado” as suas obrigações, cometido crimes e “fugido” para a China.
Minhas entrevistas com Mika Brzezinski e Savannah Guthrie foram amargas e duras. Como eu estava sem dormir direito há mais de uma semana, já não tinha paciência para aguentar as críticas contra Snowden implícitas em suas perguntas: eu esperava que os jornalistas elogiassem e não demonizasse alguém que, mais do que ninguém em vários anos, havia colocado em evidência uma doutrina de segurança nacional bastante discutível.


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Após mais alguns dias de entrevistas, decidi que era hora de sair de Hong Kong. Agora seria certamente impossível encontrar Snowden, ou ajudá-lo a sair da cidade; havia chegado a um momento que me sentia, tanto física como emocional e psicologicamente, totalmente esgotado. Tinha vontade de voltar ao Rio de Janeiro.
Pensei em fazer uma escala de um dia em Nova York a fim de dar entrevistas… só para deixar claro que poderia fazer isso e tinha a intenção de fazer. Mas um advogado me aconselhou a não ir aos EUA, dizendo que era um absurdo correr riscos legais desse tipo antes de saber qual seria a reação do Governo. “Graças a você conhecemos o maior vazamento de segurança nacional da história dos EUA e você foi à televisão com a mensagem mais desafiadora possível”, me disse. “Só faz sentido planejar uma viagem aos EUA quando tivermos alguma reação do Departamento de Justiça”.
Eu não estava de acordo: considerava altamente improvável que a Administração Obama detivesse um jornalista em meio a essas reportagens de tamanha notoriedade. No entanto, eu estava cansado demais para discutir ou assumir riscos. Então, pedi ao The Guardian que reservasse meu voo para o Rio com escala em Dubai, bem longe da América do Norte. Pelo momento, refleti, já havia feito o bastante.


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