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Cibersegurança

Botnet de TV Box Android infecta 1,3 milhão de aparelhos

Google derruba rede criminosa com 1,3 milhão de dispositivos Android infectados por backdoor de fábrica.

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Uma operação internacional liderada pelo Google revelou um problema grave na fabricação de dispositivos Android: mais de 1,3 milhão de aparelhos foram comprometidos antes mesmo de chegar às mãos dos consumidores. A rede criminosa, identificada como XCPE, utilizava TV Boxes e outros equipamentos conectados à internet para executar atividades clandestinas, incluindo fraudes publicitárias, espionagem e comercialização de conexões residenciais.

O caso chama atenção porque os consumidores não precisavam instalar aplicativos suspeitos, acessar páginas maliciosas ou clicar em links fraudulentos para serem afetados. O código responsável pela infecção já estava incorporado ao firmware dos equipamentos. A investigação atribuiu, com alto grau de confiança, o desenvolvimento e a operação desse ecossistema à fabricante chinesa Videostrong Technology, empresa que atua na produção de dispositivos comercializados sob diferentes marcas, incluindo equipamentos associados à MECOOL.

O Brasil está entre os países mais afetados pela operação, que alcançou mais de 200 países e territórios. Além de interromper servidores utilizados pelos criminosos, o Google anunciou o rompimento dos vínculos com a fabricante e mudanças nos procedimentos de verificação de firmware. A descoberta também expõe uma questão importante: até que ponto o consumidor pode confiar na segurança de um aparelho que recebe certificação para utilizar os serviços oficiais do Android?

Como a botnet XCPE infectava TV Boxes Android

A ameaça recebeu o nome de XCPE, em referência ao componente malicioso x.cpe, incorporado ao firmware de diferentes modelos de dispositivos Android.

Segundo a investigação do Google Threat Intelligence Group, o código estava presente nos equipamentos antes da comercialização. Isso caracteriza um comprometimento da cadeia de fornecimento, situação em que uma ameaça é introduzida durante a fabricação, preparação ou distribuição de um produto, em vez de surgir depois que ele chega ao consumidor.

O funcionamento do malware evoluiu ao longo dos anos. Desde pelo menos o final de 2024, os operadores passaram a utilizar uma arquitetura modular, dividida em componentes com responsabilidades diferentes. Essa estratégia dificultava a identificação da ameaça e permitia distribuir novas funcionalidades sem precisar substituir todo o backdoor.

O componente principal, x.cpe, também identificado como com.oemservice em determinadas versões, era instalado como aplicativo de sistema e executado com privilégios associados ao identificador android.uid.system.

Na prática, isso concedia ao código acesso muito superior ao de um aplicativo convencional. O componente podia interagir com serviços internos do Android, estabelecer comunicação com servidores externos e receber instruções para executar operações remotamente.

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Botnet de TV Box Android infecta 1,3 milhão de aparelhos 3

Backdoor persistente dificultava a remoção

Um dos aspectos mais preocupantes do XCPE era sua capacidade de permanecer instalado mesmo depois de tentativas de remoção.

O componente principal ficava incorporado à partição de firmware do equipamento. Quando o dispositivo era iniciado, um mecanismo verificava a existência do pacote correspondente no diretório /oem/ e podia reinstalá-lo na partição de aplicativos.

Isso significa que simplesmente desinstalar o aplicativo não eliminava necessariamente a ameaça. Após uma reinicialização, o mecanismo de persistência podia restaurar o componente malicioso.

A estratégia também complicava a identificação do problema por ferramentas convencionais. Como o backdoor fazia parte do ambiente de sistema, sua presença poderia passar despercebida durante verificações superficiais.

Como os criminosos controlavam os aparelhos

A comunicação entre os dispositivos infectados e os operadores utilizava uma arquitetura de duas etapas.

Primeiro, o malware realizava requisições HTTP para obter configurações dinâmicas, informações de localização e parâmetros necessários à comunicação. Depois, estabelecia uma conexão persistente utilizando MQTT, protocolo bastante empregado em dispositivos conectados por consumir poucos recursos de rede.

Por meio dessa conexão, os operadores podiam enviar instruções aos equipamentos, incluindo:

  • Capturas de tela: obtenção de imagens da interface exibida no dispositivo.
  • Execução remota de comandos: envio de comandos de shell e scripts para executar operações no Android.
  • Coleta de informações: extração de dados sobre o aparelho, aplicativos instalados, contas e registros do sistema.
  • Reconhecimento da rede: identificação de características da conexão, endereços IP e informações de roteamento.
  • Instalação de componentes: distribuição silenciosa de aplicativos e módulos adicionais.

O Google também identificou atividades que envolviam injeção de comandos e interação remota com os dispositivos. Essas capacidades demonstram que o XCPE não era apenas um mecanismo de publicidade indesejada, mas uma infraestrutura de acesso remoto que poderia ser explorada por diferentes grupos criminosos.

Google Play Protect também foi desativado

A investigação revelou que o backdoor tinha capacidade de enfraquecer as próprias proteções do Android.

Um dos comandos identificados pelos pesquisadores utilizava a função AppUtils.disablePackageVerify() para modificar a configuração global package_verifier_user_consent, atribuindo o valor -1.

Essa alteração desativava a verificação de aplicativos do Google Play Protect, facilitando a instalação de componentes sem as verificações de segurança normalmente aplicadas pelo sistema.

O detalhe é particularmente grave porque o usuário poderia acreditar que estava utilizando um equipamento protegido pelos mecanismos oficiais do Android, enquanto o próprio firmware permitia que operadores externos enfraquecessem essas proteções.

Videostrong é apontada como responsável pela operação

A investigação do Google atribuiu, com alto grau de confiança, o desenvolvimento, a distribuição e a monetização do XCPE à Videostrong Technology Co., fabricante chinesa que trabalha como OEM e ODM no mercado de dispositivos Android.

Essas empresas desenvolvem equipamentos e firmwares que podem ser comercializados por diferentes marcas. Isso significa que um mesmo fornecedor pode distribuir uma plataforma de software para diversos modelos de TV Boxes, projetores e outros dispositivos conectados.

Entre as evidências técnicas identificadas estão referências a equipamentos associados à MECOOL. O malware consultava a propriedade de sistema ro.mecool.device para determinar qual infraestrutura de comunicação deveria utilizar. O relatório também menciona o software YokaTV Player, integrado ao ecossistema de aplicativos da fabricante.

Outro elemento importante foi a infraestrutura de distribuição. Os pesquisadores identificaram arquivos hospedados em páginas e lançamentos do GitHub controlados pelos operadores, além de servidores utilizados para armazenar configurações, scripts e módulos adicionais.

A análise dos servidores de comando e controle também revelou registros de operações realizadas nos dispositivos, incluindo instalação e remoção de aplicativos, capturas de tela, coleta de informações e execução de comandos remotos.

Para o Google, as evidências indicam uma operação estruturada para obter lucro, e não um simples erro isolado de desenvolvimento ou a ação de um funcionário mal-intencionado.

Brasil aparece entre os países com mais aparelhos infectados

Os números levantados pela TrendAI ajudam a dimensionar o alcance da operação.

Durante o período de 3 de junho a 1º de outubro de 2026, a empresa contabilizou 1.472.554 dispositivos infectados, distribuídos por 206 modelos e mais de 170 países.

A diferença entre esse levantamento e os mais de 1,3 milhão anunciados pelo grupo responsável pela operação decorre dos diferentes períodos de observação e métodos de coleta utilizados pelos participantes.

O Brasil aparece entre os cinco países com maior número de dispositivos identificados, acompanhado por Malásia, Iraque, México e Taiwan. O relatório não apresenta, nesse levantamento, uma quantidade individual consolidada para o mercado brasileiro.

Outro indicador impressionante envolve os endereços IP utilizados pela rede. Foram identificados 3.849.226 endereços residenciais distintos durante o período analisado. Em um único dia, a infraestrutura chegou a disponibilizar mais de 366 mil endereços IP residenciais simultaneamente.

Esses números demonstram que a botnet não dependia apenas de uma grande quantidade de aparelhos. Ela também explorava a distribuição geográfica das conexões para oferecer serviços de proxy residencial.

Falha nos testes de certificação do Android

O episódio também expôs uma deficiência nos procedimentos de verificação de firmware utilizados pelo Google.

Fabricantes que desejam comercializar dispositivos certificados com aplicativos e serviços oficiais do Google precisam passar por testes de compatibilidade e segurança. Entretanto, segundo a investigação, a Videostrong utilizou técnicas de ofuscação para esconder o comportamento malicioso durante as avaliações.

O mecanismo permitia carregar o código comprometido depois da primeira inicialização do equipamento. Assim, o firmware apresentado durante os testes poderia não demonstrar o mesmo comportamento observado quando o produto chegava ao consumidor.

O Google reconheceu a existência dessa brecha em seus procedimentos e anunciou mudanças no processo de revisão para melhorar a verificação da integridade do firmware de dispositivos certificados com Android TV.

A resposta também incluiu medidas legais para derrubar domínios e servidores utilizados no controle da botnet e na distribuição de módulos maliciosos. A empresa rompeu os vínculos com a Videostrong e proibiu a fabricante, suas futuras subsidiárias e afiliadas de produzir dispositivos Android certificados ou fornecer software para outros fabricantes certificados.

Além disso, foram atingidos domínios de comando e controle associados a mais de uma dúzia de famílias de malware. O Google estima que a interrupção dessas estruturas poderá cortar o acesso a pelo menos 10 milhões de outros dispositivos comprometidos utilizados por operadores afiliados.

É importante entender que esse número adicional não representa outros 10 milhões de aparelhos infectados pelo XCPE. Trata-se de dispositivos associados às infraestruturas criminosas dos grupos que utilizavam módulos distribuídos por meio do backdoor.

Como proteger sua rede contra uma TV Box infectada

A descoberta levanta uma questão difícil para os consumidores: o que fazer quando o próprio firmware do aparelho está comprometido?

Nesse cenário, as soluções convencionais de remoção de malware não são suficientes. O componente x.cpe é executado como aplicativo de sistema e utiliza a chave de assinatura do fabricante. Além disso, sua cópia na partição /oem/ permite reinstalação após a reinicialização.

Por esse motivo, restaurar as configurações de fábrica não garante a remoção do backdoor. A limpeza exige uma intervenção confiável do fabricante, uma proteção da plataforma capaz de neutralizar o componente ou a substituição do equipamento.

Recomendações para usuários domésticos

Quem utiliza uma TV Box Android deve começar verificando a procedência do aparelho e a disponibilidade de atualizações oficiais.

Algumas medidas ajudam a reduzir a exposição:

  • Identifique o modelo e o fabricante: confira as informações disponíveis na embalagem, nas configurações do Android e na documentação do equipamento.
  • Verifique a certificação: prefira dispositivos com certificação oficial e procedência verificável. A presença de aplicativos Google, isoladamente, não comprova que um equipamento é certificado.
  • Evite firmwares desconhecidos: não instale imagens de sistema encontradas em fóruns ou páginas sem procedência confiável.
  • Desconecte aparelhos suspeitos: se houver motivos concretos para suspeitar de comprometimento, retire o equipamento da rede até conseguir uma avaliação adequada.
  • Separe os dispositivos conectados: utilize uma rede de convidados ou uma VLAN específica para TV Boxes, câmeras, televisores e outros equipamentos IoT.
  • Não confie apenas na restauração: uma redefinição de fábrica pode apagar os dados pessoais sem eliminar componentes maliciosos armazenados no firmware.

A identificação de um modelo associado à Videostrong ou à MECOOL não significa, por si só, que todos os aparelhos daquela marca estejam infectados. É necessário considerar o modelo, a versão do firmware e os indicadores técnicos identificados pelos pesquisadores.

Cuidados para empresas e ambientes de home office

Em ambientes corporativos, o problema merece atenção adicional. Uma TV Box comprometida conectada à mesma rede de computadores utilizados para trabalhar pode ampliar a superfície de ataque e expor recursos internos.

Administradores de sistemas devem manter dispositivos de entretenimento e equipamentos IoT em segmentos isolados, com regras de firewall que restrinjam conexões desnecessárias.

Também é recomendável monitorar o tráfego de saída, investigar conexões persistentes desconhecidas e evitar que equipamentos sem gerenciamento tenham acesso direto a servidores, sistemas de armazenamento e estações de trabalho.

Para profissionais em home office, uma medida importante é manter os dispositivos corporativos separados dos equipamentos domésticos não confiáveis. O acesso aos recursos da empresa deve ocorrer por dispositivos gerenciados, com autenticação forte e controles de segurança adequados.

A operação contra o XCPE representa um avanço importante no combate às botnets de dispositivos conectados. Entretanto, derrubar os servidores de comando e controle não significa remover automaticamente o malware de todos os aparelhos vendidos.

O caso demonstra que a segurança de um produto precisa ser avaliada desde sua fabricação. Certificação, atualizações e mecanismos de proteção são importantes, mas não substituem a responsabilidade dos fabricantes pela integridade do firmware entregue aos consumidores.

QUEM ESCREVE
Jardeson Márcio

Sobre o autor

Jardeson Márcio é Jornalista e Mestre em Tecnologia Agroalimentar pela Universidade Federal da Paraíba. Com 8 anos de experiência escrevendo no SempreUpdate, Jardeson é um especialista em Android, Apple, Cibersegurança e diversos outros temas do universo tecnológico. Seu foco é trazer análises aprofundadas, notícias e guias práticos sobre segurança digital, mobilidade, sistemas operacionais e as últimas inovações que moldam o cenário da tecnologia.