O Samsung Galaxy Watch pode ganhar um papel importante na medicina preventiva, indo muito além do monitoramento de passos, calorias e frequência cardíaca. Um novo estudo clínico conduzido na Coreia do Sul está investigando como os dados coletados por relógios inteligentes, combinados com inteligência artificial (IA), informações genéticas e registros médicos, podem ajudar a identificar precocemente pessoas com maior risco de desenvolver doença renal crônica (DRC).
A iniciativa é liderada por pesquisadores do Hospital Seoul St. Mary’s, vinculado à Universidade Católica da Coreia, e representa um avanço na utilização de dispositivos vestíveis como ferramentas auxiliares de acompanhamento da saúde. O projeto pretende integrar informações biométricas coletadas diariamente pelo Galaxy Watch com exames laboratoriais e dados genômicos para alimentar modelos capazes de estimar riscos individuais de doenças.
A proposta merece atenção porque a doença renal crônica pode evoluir silenciosamente durante anos, sem apresentar sintomas evidentes nos estágios iniciais. Nesse cenário, o monitoramento contínuo aliado à inteligência artificial poderia ajudar a identificar alterações relevantes antes que elas se tornem problemas clínicos mais graves. Entretanto, é importante estabelecer uma diferença: o estudo investiga a capacidade de prever riscos de saúde, não de transformar um smartwatch em equipamento capaz de diagnosticar doenças.
Como o Samsung Galaxy Watch está sendo usado na pesquisa médica
O projeto é conduzido pelo professor Lee In-seok, da divisão de gastroenterologia do Hospital Seoul St. Mary’s. A pesquisa integra um programa sul-coreano de desenvolvimento de tecnologias de inteligência artificial para serviços personalizados de saúde, apoiado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia da Informação e Comunicação da Coreia do Sul e pelo Instituto de Planejamento e Avaliação de Tecnologias de Informação e Comunicação (IITP).
A validação clínica começou em outubro de 2026 e prevê a participação de 50 voluntários. Durante três meses, os participantes utilizarão um aplicativo móvel associado a dispositivos vestíveis para registrar informações relacionadas à saúde e aos hábitos cotidianos.
O estudo terá duração total de seis meses. No terceiro mês, os participantes passarão por exames complementares, incluindo análises de sangue e exames de imagem do tórax. Um dos indicadores acompanhados será a taxa de filtração glomerular estimada (eGFR), utilizada pelos profissionais de saúde para avaliar a capacidade dos rins de filtrar o sangue.
A intenção é verificar se a combinação de dados biométricos, informações clínicas e inteligência artificial consegue oferecer acompanhamento mais consistente do que os modelos tradicionais de avaliação pontual.

Da frequência cardíaca aos registros genômicos
O diferencial da iniciativa está na quantidade e na diversidade das informações utilizadas pelos algoritmos.
O Samsung Galaxy Watch fornece dados relacionados à frequência cardíaca, atividade física e padrões de sono. Essas informações ajudam a construir um histórico do comportamento fisiológico do participante ao longo do tempo.
Entretanto, o relógio representa apenas uma parte da arquitetura tecnológica. Os pesquisadores também trabalham com registros eletrônicos de saúde de diferentes instituições médicas, resultados de exames clínicos e informações provenientes de análises genômicas.
A integração dessas informações permite trabalhar com o conceito de fenoma (phenome), que representa o conjunto de características biológicas e condições de saúde resultantes da interação entre fatores genéticos e ambientais.
Na prática, isso significa que o algoritmo não precisa considerar apenas uma frequência cardíaca registrada em determinado momento. Ele pode relacionar mudanças nos padrões de atividade e sono com resultados laboratoriais, histórico médico e predisposições individuais.
Outro componente importante é o uso de aprendizado federado (Federated Learning). Essa abordagem permite que diferentes instituições contribuam para o treinamento de modelos de inteligência artificial sem precisar compartilhar diretamente todos os dados médicos originais dos pacientes.
A técnica pode ajudar a reduzir a exposição de informações sensíveis durante o desenvolvimento dos algoritmos. Ainda assim, não elimina automaticamente os riscos relacionados à privacidade, à segurança e à governança dos dados médicos.
A transição dos dados pontuais para o monitoramento contínuo
Um dos principais argumentos por trás da pesquisa é a limitação dos métodos convencionais de avaliação de riscos.
Exames laboratoriais são fundamentais para identificar alterações na função renal, mas normalmente representam uma fotografia da condição do paciente em determinado momento. Uma medição isolada não consegue mostrar, sozinha, todas as oscilações fisiológicas que acontecem durante semanas ou meses.
O monitoramento por dispositivos vestíveis oferece outra perspectiva.
Ao registrar continuamente determinadas métricas, o relógio inteligente pode ajudar a identificar mudanças nos padrões habituais de sono, atividade física e frequência cardíaca. Quando essas informações são combinadas com exames clínicos, o sistema passa a trabalhar com uma visão longitudinal da saúde.
Isso não significa que os sensores do Galaxy Watch consigam medir diretamente a função dos rins. A avaliação renal continua dependendo de exames específicos, como creatinina sérica, cálculo da eGFR e análise de albumina na urina.
A contribuição do dispositivo está em fornecer informações complementares que podem ajudar os modelos preditivos a reconhecer padrões associados a alterações de saúde.
Essa distinção é fundamental: monitoramento contínuo não é sinônimo de diagnóstico contínuo. O smartwatch acompanha determinadas características fisiológicas, enquanto a confirmação de uma doença permanece sob responsabilidade dos procedimentos médicos apropriados.
O papel da inteligência artificial além dos rins
Embora a doença renal crônica seja um dos principais focos da validação clínica, a tecnologia desenvolvida pelos pesquisadores sul-coreanos possui objetivos mais abrangentes.
O Departamento de Informática Médica da Universidade Católica da Coreia também trabalha no desenvolvimento de modelos de inteligência artificial para estimar riscos relacionados ao câncer de pulmão.
A proposta é utilizar diferentes fontes de informações para construir avaliações individualizadas, considerando características clínicas, genéticas e comportamentais.
O aplicativo associado à plataforma PHAIR também pretende oferecer orientações personalizadas de estilo de vida. A partir dos resultados das análises, o sistema poderá sugerir mudanças relacionadas à atividade física e a outros hábitos cotidianos.
A ideia é aproximar a inteligência artificial da medicina preventiva, transformando informações que normalmente ficam distribuídas entre exames, consultas e dispositivos pessoais em recomendações mais organizadas.
O projeto envolve diferentes organizações, incluindo o Hospital Seoul St. Mary’s, a Universidade Católica da Coreia, a Digitalpharm, a Samsung Electronics, a NAVER Cloud e a Macrogen, entre outras instituições.
Essa colaboração demonstra que o desenvolvimento de tecnologias médicas vestíveis depende de muito mais do que sensores instalados em um relógio. É necessário construir uma infraestrutura capaz de integrar dados, desenvolver algoritmos e validar resultados em ambientes clínicos.
Apple Watch e a corrida pela detecção de problemas de saúde
A movimentação sul-coreana também acompanha uma tendência internacional: transformar dispositivos vestíveis em ferramentas auxiliares para identificar riscos que tradicionalmente exigem exames médicos específicos.
Um exemplo envolve o Apple Watch e o monitoramento de hipercalemia, condição caracterizada pela concentração elevada de potássio no sangue.
Nesse caso, a iniciativa está relacionada ao aplicativo experimental AK+ Guard, desenvolvido pela AccurKardia. A solução utiliza inteligência artificial para analisar sinais de eletrocardiograma (ECG) e auxiliar na identificação de casos de hipercalemia moderada ou grave.
O Apple Watch aparece entre os dispositivos considerados para a obtenção dos sinais elétricos cardíacos utilizados pelo algoritmo.
Entretanto, existe uma diferença importante entre as duas iniciativas. O AK+ Guard é um projeto de terceiros, não um recurso nativo anunciado pela Apple para diagnosticar hipercalemia. Seu desenvolvimento também depende de validação clínica e avaliação de desempenho.
Enquanto a pesquisa sul-coreana procura combinar histórico clínico, genômica e informações biométricas para estimar riscos de doenças, a solução da AccurKardia investiga a possibilidade de identificar alterações associadas ao potássio por meio de sinais elétricos do coração.
As duas abordagens mostram como a inteligência artificial pode ampliar a utilidade dos relógios inteligentes, mas também evidenciam que cada aplicação exige validação específica.
Entre a pesquisa e o lançamento comercial: o que esperar nos próximos anos
Apesar do potencial tecnológico, ainda existe uma distância considerável entre os resultados de pesquisas clínicas e a disponibilização de funcionalidades médicas diretamente nos produtos comerciais.
O estudo sul-coreano começou com apenas 50 participantes e possui como objetivo avaliar a utilidade, a satisfação dos usuários e a viabilidade de aplicação cotidiana da plataforma.
Isso não representa uma validação definitiva da capacidade do algoritmo de diagnosticar ou prever com precisão a doença renal crônica em diferentes populações.
Antes de uma eventual comercialização como ferramenta médica, tecnologias desse tipo precisam demonstrar sensibilidade, especificidade, confiabilidade e capacidade de generalização. Também precisam comprovar que conseguem evitar taxas excessivas de falsos positivos e falsos negativos.
Um sistema que identifica incorretamente um usuário saudável como alguém com alto risco de doença pode provocar ansiedade e exames desnecessários. No sentido contrário, deixar de identificar uma pessoa realmente vulnerável pode transmitir uma falsa sensação de segurança.
Também existem questões regulatórias. Dependendo da finalidade declarada e das funcionalidades oferecidas, softwares de inteligência artificial voltados à avaliação de riscos médicos podem precisar passar por processos de avaliação e autorização de órgãos como a FDA, nos Estados Unidos, e a Anvisa, no Brasil.
Outro desafio envolve a proteção das informações pessoais. Dados genômicos, históricos médicos e informações biométricas são particularmente sensíveis. A integração dessas informações exige mecanismos robustos de segurança, controle de acesso e transparência sobre a utilização dos registros.
Para a Samsung, pesquisas desse tipo podem abrir novas possibilidades para o ecossistema Galaxy Watch, especialmente em um mercado no qual os fabricantes disputam espaço com recursos cada vez mais avançados de monitoramento da saúde.
Entretanto, não existe confirmação de que o modelo preditivo desenvolvido na Coreia do Sul será incorporado diretamente ao One UI Watch ou disponibilizado como uma atualização para os relógios vendidos atualmente.
O resultado mais importante da pesquisa talvez não seja transformar o smartwatch em um laboratório médico de bolso, mas demonstrar como informações coletadas durante a rotina podem complementar exames tradicionais e ajudar profissionais de saúde a identificar pessoas que precisam de acompanhamento mais próximo.
O Samsung Galaxy Watch pode se tornar uma ferramenta relevante na medicina preventiva, mas sua contribuição dependerá da qualidade dos dados, da precisão dos algoritmos e da validação científica de cada funcionalidade.
