Google rejeita anúncios no Gemini enquanto OpenAI testa anúncios no ChatGPT

IA gratuita ou anúncios na conversa? Google e OpenAI mostram que o futuro dos chatbots será uma escolha do usuário.

Por
Jardeson Márcio
Jardeson Márcio é Jornalista e Mestre em Tecnologia Agroalimentar pela Universidade Federal da Paraíba. Com 8 anos de experiência escrevendo no SempreUpdate, Jardeson é um especialista...
7 min

A era da IA totalmente gratuita e limpa começa a dar sinais claros de desgaste. À medida que os custos de infraestrutura, treinamento de modelos e expansão global aumentam, as grandes empresas de inteligência artificial generativa precisam responder a uma pergunta inevitável: quem paga essa conta no longo prazo?

Nos últimos meses, duas estratégias opostas ganharam destaque. De um lado, a OpenAI iniciou testes de anúncios no ChatGPT, inclusive em novos planos pagos de baixo custo. Do outro, o Google, por meio do Gemini, reafirma publicamente que não pretende inserir publicidade direta no chatbot, ao menos por enquanto.

O contraste entre a postura cautelosa de Demis Hassabis, CEO do Google DeepMind, e as movimentações pragmáticas de Sam Altman, à frente da OpenAI, revela muito mais do que decisões técnicas. Ele expõe visões distintas sobre monetização, experiência do usuário e o futuro da IA gratuita.

O modelo da OpenAI: O que muda no ChatGPT

A OpenAI deu um passo decisivo ao anunciar o ChatGPT Go, um novo plano de assinatura voltado a usuários que buscam mais recursos do que a versão gratuita, mas sem o custo elevado dos planos premium. Com preço estimado em US$ 8 por mês, o plano se posiciona como uma alternativa intermediária e, ao mesmo tempo, como um campo de testes para novas formas de receita.

Nesse contexto, os anúncios no ChatGPT passam a fazer parte da conversa, literalmente. Segundo a empresa, os conteúdos patrocinados aparecem abaixo das respostas, claramente rotulados como “patrocinados”, sem interferir diretamente no texto principal gerado pela IA.

A proposta é simples, pelo menos no discurso: manter a fluidez da interação, sem transformar o chatbot em um painel publicitário agressivo. Ainda assim, trata-se de uma mudança simbólica importante. Pela primeira vez, a IA conversacional mais popular do mundo admite que a publicidade pode coexistir com respostas geradas por modelos avançados.

Imagem: BleepingComputer

Privacidade e restrições

Para minimizar críticas e riscos regulatórios, a OpenAI afirma que os anúncios no ChatGPT seguem regras rígidas. Temas sensíveis como saúde, política, questões financeiras delicadas e conteúdos direcionados a menores de 18 anos ficam fora do escopo de monetização.

Além disso, a empresa reforça que dados pessoais das conversas não são usados de forma individualizada para segmentação direta de anúncios. A promessa é trabalhar com categorias amplas e contextuais, evitando o uso explícito de informações sensíveis.

Mesmo assim, especialistas em privacidade digital alertam que o simples fato de anúncios existirem dentro de um ambiente conversacional já altera a percepção de confiança. O chatbot deixa de ser apenas uma ferramenta neutra e passa a integrar interesses comerciais de forma mais visível.

A resistência do Google: Gemini segue (por enquanto) sem anúncios

Enquanto a OpenAI testa novos caminhos, o Google adota um discurso quase oposto. Durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, Demis Hassabis foi direto ao afirmar que o Gemini não terá anúncios integrados às respostas no curto prazo.

Segundo o executivo, a prioridade é proteger a experiência central do usuário, garantindo que o chatbot seja percebido como útil, confiável e livre de distrações comerciais. Para o Google DeepMind, inserir publicidade cedo demais poderia comprometer a adoção e a credibilidade do produto em um mercado ainda em consolidação.

Essa postura também funciona como uma crítica indireta à estratégia da concorrência. Ao se posicionar como o “chatbot sem anúncios”, o Gemini tenta conquistar usuários que veem a publicidade como um ruído indesejado em ferramentas de produtividade e aprendizado.

O ecossistema do Google como vantagem

A postura mais paciente do Google não acontece por acaso. Diferentemente da OpenAI, a empresa já possui um dos maiores ecossistemas de monetização do planeta. Google Search, YouTube, Google Ads e serviços corporativos geram receitas suficientes para sustentar investimentos bilionários em IA.

Nesse cenário, o Gemini pode ser visto menos como um produto isolado e mais como uma peça estratégica dentro de um conjunto maior. Mesmo sem anúncios no ChatGPT ou no próprio Gemini, o Google se beneficia indiretamente ao manter usuários dentro do seu ecossistema, coletando sinais de uso e fortalecendo sua posição frente a concorrentes.

Além disso, o Google pode se dar ao luxo de observar. Ao deixar que a OpenAI teste os limites da publicidade em chatbots, a empresa aprende com os acertos e erros alheios, sem assumir riscos imediatos de reputação.

O futuro da IA generativa: Abundância ou poluição visual?

A introdução de anúncios no ChatGPT marca um ponto de inflexão no debate sobre o futuro da IA generativa. Por um lado, a monetização via publicidade pode garantir a sustentabilidade financeira de ferramentas amplamente utilizadas, mantendo versões gratuitas acessíveis a milhões de pessoas.

Por outro, existe o risco real de poluição visual e cognitiva. Chatbots foram concebidos como interfaces limpas, focadas em diálogo e resolução de problemas. A presença constante de anúncios, mesmo que discretos, pode transformar essa experiência em algo mais próximo de uma timeline patrocinada do que de um assistente inteligente.

Para o usuário final, a escolha tende a se tornar binária. Ou paga-se uma assinatura mais cara para evitar anúncios, ou aceita-se a presença de publicidade em troca de acesso facilitado. Para empresas como OpenAI e Google, o desafio está em equilibrar receita, confiança e usabilidade em um mercado cada vez mais competitivo.

No fundo, a discussão vai além de modelos de negócio. Ela toca na própria definição do que esperamos da inteligência artificial no cotidiano. Uma ferramenta neutra de apoio ao conhecimento ou mais um canal de disputa pela atenção do usuário?

Você prefere pagar uma assinatura ou ver anúncios em suas conversas com a IA? Deixe sua opinião nos comentários!

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