A explosão da inteligência artificial está transformando o mercado de hardware, e a Samsung Electronics acaba de registrar um dos resultados financeiros mais expressivos da história da indústria de tecnologia. No terceiro trimestre de 2026, encerrado em setembro, a companhia sul-coreana alcançou uma receita de 195,3 trilhões de won (aproximadamente R$ 792,9 bilhões) e um lucro operacional de 107,4 trilhões de won (cerca de R$ 436 bilhões). O resultado tornou a Samsung a primeira empresa de tecnologia a ultrapassar a marca de 100 trilhões de won em lucro operacional trimestral. O principal motor desse desempenho foi a divisão de semicondutores, impulsionada pela demanda por memórias HBM4, componentes essenciais para os sistemas modernos de inteligência artificial.
O resultado evidencia uma transformação importante no setor: enquanto fabricantes de hardware disputam espaço no mercado de smartphones e computadores, os componentes destinados a data centers e servidores de IA estão assumindo um papel cada vez mais estratégico. A capacidade de fornecer memória de alta largura de banda, armazenamento corporativo e chips avançados passou a influenciar diretamente a rentabilidade das maiores empresas de semicondutores do mundo.
Além do desempenho das memórias, a Samsung está ampliando seus investimentos em fabricação de chips, processos de 2 nanômetros e infraestrutura industrial nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, o aumento dos custos dos componentes pressiona as operações voltadas ao consumidor. Essa diferença ajuda a explicar por que a infraestrutura de inteligência artificial se tornou o principal eixo financeiro da companhia.
O motor da virada: como as memórias HBM4 e os SSDs corporativos impulsionaram os resultados
A divisão Device Solutions (DS), responsável pelos semicondutores, registrou receita de 147,1 trilhões de won (aproximadamente R$ 597,2 bilhões) e lucro operacional de 106,5 trilhões de won (cerca de R$ 432,4 bilhões) no terceiro trimestre de 2026.
O destaque está no negócio de memórias. A expansão dos sistemas de inteligência artificial elevou a procura por componentes capazes de alimentar processadores com grandes volumes de dados, reduzindo gargalos que limitam o desempenho de aceleradores especializados.
Nesse cenário, as memórias HBM4, quarta geração da tecnologia High Bandwidth Memory, ganharam protagonismo. Diferentemente das memórias convencionais utilizadas em computadores pessoais, os módulos HBM são projetados para oferecer largura de banda extremamente elevada e proximidade física com processadores de alto desempenho.
Essa combinação é fundamental para aceleradores de IA que executam modelos com bilhões de parâmetros. Durante o treinamento e a inferência, esses sistemas movimentam enormes quantidades de dados entre a memória e as unidades de processamento. Se a memória não acompanhar a velocidade dos chips, parte da capacidade computacional permanecerá ociosa.
A Samsung informou que a receita com HBM4 mais que triplicou no terceiro trimestre em comparação com o trimestre anterior. A empresa também ampliou o fornecimento desses componentes para atender à expansão dos servidores de inteligência artificial.

Por que a demanda por memórias HBM4 supera a capacidade de fornecimento
O crescimento não depende apenas da quantidade de aceleradores instalados nos data centers. Cada nova geração de hardware pode exigir configurações de memória mais sofisticadas, com maior capacidade, largura de banda e eficiência energética.
A pressão também alcança a DRAM para servidores, as memórias DDR5 de alta velocidade e os SSDs corporativos. Esses componentes desempenham funções diferentes, mas complementares: a HBM atende às necessidades de acesso rápido dos aceleradores, enquanto a DRAM convencional sustenta os processadores dos servidores e os SSDs armazenam conjuntos de dados, modelos e informações utilizados pelas aplicações.
A Samsung espera que os investimentos em infraestrutura de IA continuem sustentando o mercado em 2027. A empresa também indicou que a demanda por componentes destinados à inteligência artificial deverá superar a capacidade de fornecimento do setor, aumentando a importância de contratos de longo prazo e do planejamento industrial.
Para administradores de sistemas e profissionais de infraestrutura, esse cenário tem consequências práticas. A disponibilidade de servidores equipados com aceleradores modernos pode depender não apenas da produção das GPUs, mas também do fornecimento de memória e de outros componentes especializados.
Investimentos bilionários para ampliar a capacidade industrial
A expansão exige investimentos elevados em equipamentos, instalações e processos de fabricação. No terceiro trimestre, a Samsung destinou 29 trilhões de won (aproximadamente R$ 117,7 bilhões) a despesas de capital, dos quais 27,2 trilhões de won (cerca de R$ 110,4 bilhões) foram direcionados à divisão de semicondutores.
Nos primeiros nove meses de 2026, as despesas de capital totalizaram 56,9 trilhões de won (aproximadamente R$ 231 bilhões). Para o ano inteiro, a companhia projetou investimentos de 84,4 trilhões de won (cerca de R$ 342,7 bilhões), incluindo 76,8 trilhões de won (aproximadamente R$ 311,8 bilhões) destinados à divisão de semicondutores.
Esses valores mostram que a Samsung está tentando transformar a demanda atual em capacidade produtiva duradoura. Entretanto, ampliar uma fábrica de semicondutores não é tão simples quanto aumentar a produção de um produto convencional. A construção de instalações, a instalação de equipamentos especializados e a qualificação dos processos podem exigir anos.
Por isso, mesmo com investimentos crescentes, a oferta de componentes avançados pode continuar limitada. A consequência é uma disputa por capacidade produtiva entre fabricantes de processadores, provedores de nuvem e empresas que desenvolvem grandes modelos de inteligência artificial.
A nova fronteira dos semicondutores: litografia de 2 nm e a fábrica no Texas
O avanço das memórias não é a única frente estratégica da Samsung. A empresa também busca ampliar sua competitividade na fabricação de processadores avançados, um mercado no qual a capacidade de produzir chips menores, mais eficientes e com maior densidade de transistores pode determinar o sucesso de contratos bilionários.
A tecnologia de 2 nanômetros está no centro dessa estratégia. A Samsung pretende conquistar novos clientes para sua divisão de fabricação por contrato, conhecida como foundry, atendendo principalmente a projetos de computação de alto desempenho e inteligência artificial.
Nesse mercado, a companhia enfrenta concorrentes estabelecidos e precisa demonstrar não apenas que consegue fabricar chips avançados, mas que pode fazê-lo com rendimento industrial, confiabilidade e custos competitivos. O rendimento, conhecido como yield, representa a proporção de chips funcionais obtidos em cada lote produzido e tem impacto direto na rentabilidade.
A empresa informou que continua conquistando encomendas para processos avançados de fabricação, incluindo projetos de 2 nm destinados a aplicações de computação de alto desempenho. A expansão, entretanto, não elimina os desafios financeiros de sua operação de fundição de chips, que permanece pressionada pelos custos e pela concorrência.
O papel dos chips de 4 nm e da fábrica de Taylor
Os processos de fabricação de 4 nm também continuam relevantes para sistemas que combinam processamento convencional e aceleração de inteligência artificial. Unidades de processamento neural, ou NPUs, podem executar determinadas tarefas de IA com maior eficiência energética, especialmente em dispositivos que precisam realizar inferências localmente.
É importante distinguir essas aplicações da infraestrutura de data centers. Embora NPUs e aceleradores para servidores compartilhem princípios de processamento especializado, eles atendem a requisitos diferentes de desempenho, consumo de energia, memória e escala.
Outro elemento importante da estratégia é a fábrica de semicondutores de Taylor, no Texas, Estados Unidos. O projeto busca ampliar a presença industrial da Samsung no mercado norte-americano e aproximar sua capacidade de fabricação de clientes que desenvolvem chips avançados.
A instalação tem previsão de iniciar suas operações em 2027, segundo o planejamento divulgado pela empresa. O cronograma é relevante porque a construção de uma fábrica e o início da produção comercial são etapas diferentes, sujeitas a ajustes técnicos e operacionais.
A iniciativa também se relaciona à crescente preocupação de governos e empresas com a concentração geográfica da produção de semicondutores. Ter capacidade industrial em diferentes regiões pode ajudar a reduzir riscos logísticos e fortalecer o acesso a componentes estratégicos, embora não elimine a dependência de equipamentos, materiais e fornecedores especializados.
O contraste do mercado de consumo: os desafios da divisão mobile
Enquanto os semicondutores sustentam a lucratividade da Samsung, o cenário é menos favorável para parte de seus produtos destinados ao consumidor. A divisão Mobile eXperience (MX), responsável pelos smartphones Galaxy, registrou receita combinada com a área de redes de 37,7 trilhões de won (aproximadamente R$ 153,1 bilhões) e um prejuízo operacional conjunto de 0,6 trilhão de won (cerca de R$ 2,4 bilhões) no terceiro trimestre.
Um dos fatores que afetam esse segmento é o aumento do custo dos componentes. A memória utilizada em smartphones também está sujeita às mudanças de preço provocadas pela procura por produtos de maior valor agregado. Quando a capacidade produtiva é direcionada aos componentes mais rentáveis para servidores, os fabricantes de dispositivos de consumo podem enfrentar custos maiores.
A Samsung precisa equilibrar essa pressão com a necessidade de manter preços competitivos, renovar sua linha Galaxy e preservar as margens dos modelos premium. Aparelhos dobráveis e smartphones avançados podem ajudar a elevar a receita por unidade, mas não garantem imunidade ao aumento dos custos de produção.
Esse contraste revela uma questão estratégica: o crescimento da inteligência artificial pode beneficiar uma fabricante de semicondutores e, simultaneamente, pressionar outras partes do mesmo grupo empresarial. O efeito final depende do equilíbrio entre preços, custos, capacidade de produção e demanda de cada categoria.
Para os consumidores, o impacto pode aparecer em preços de lançamento mais elevados, mudanças nas configurações de memória ou menor espaço para descontos. Ainda assim, a evolução dos preços dependerá também da concorrência, das estratégias comerciais e da disponibilidade de componentes em cada mercado.
O que o recorde da Samsung revela sobre o futuro da infraestrutura tecnológica
Os resultados do terceiro trimestre de 2026 mostram como a inteligência artificial está reorganizando as prioridades da indústria de semicondutores. A Samsung alcançou receita consolidada de 195,3 trilhões de won (aproximadamente R$ 792,9 bilhões) e lucro operacional de 107,4 trilhões de won (cerca de R$ 436 bilhões), enquanto sua divisão de semicondutores respondeu pela maior parte desse desempenho. A diferença entre os negócios evidencia o peso econômico que a infraestrutura de IA adquiriu no mercado global.
A tendência também levanta questões sobre a sustentabilidade desse crescimento. A construção de data centers exige investimentos elevados em aceleradores, memória, armazenamento, redes e energia elétrica. Se a demanda continuar aumentando mais rapidamente que a oferta, os preços dos componentes poderão permanecer pressionados, elevando o custo de implantação e expansão dos ambientes computacionais.
Para empresas que operam serviços em nuvem, plataformas de IA e aplicações corporativas, isso significa que o planejamento de capacidade precisará considerar não apenas o desempenho dos equipamentos, mas também sua disponibilidade e seu custo total de propriedade.
As memórias HBM4 simbolizam essa transformação porque se tornaram componentes estratégicos para sistemas que exigem movimentação intensiva de dados. Ao mesmo tempo, a expansão dos SSDs corporativos e das memórias para servidores mostra que o crescimento da IA beneficia uma cadeia produtiva muito mais ampla do que a fabricação de GPUs.
O desafio da Samsung será aproveitar a demanda atual sem comprometer a rentabilidade futura com investimentos excessivos ou capacidade produtiva que eventualmente fique ociosa. Para a indústria, o equilíbrio entre expansão, eficiência e demanda será determinante para os próximos anos.
