O clima geral entre os desenvolvedores do LKML (Linux Kernel Mailing List) e os membros do Maintainer Summit é de um pragmatismo resiliente. Não há sinais de pânico ou instabilidade iminente, mas sim um esforço institucional deliberado para mitigar o chamado “fator ônibus”, o risco catastrófico de o projeto parar caso seu líder se torne subitamente indisponível. O motivo técnico central para essa organização é a crescente complexidade do Git workflow e a necessidade de garantir que subsistemas críticos, como o Memory Management (MM) e o Scheduler, não sofram gargalos de revisão em uma eventual transição de comando.
Tabela de sentimento
| Critério | Avaliação | O que dizem (Com fatos) |
| Continuidade técnica | Alta | Confiança absoluta em Greg Kroah-Hartman (GKH) como sucessor operacional imediato. |
| Escalabilidade | Alerta | Preocupação real com o burnout de mantenedores em áreas como DRM (Direct Rendering Manager). |
| Modernização | Divisiva | A integração de Rust-for-Linux é vista como necessária para atrair novos talentos, mas gera atrito com veteranos de C. |
| Estabilidade | Sólida | O modelo de hierarquia piramidal de Pull Requests já isola Linus de falhas menores há anos. |
O lado bom
A maturidade do Linux Foundation Technical Advisory Board (TAB) é frequentemente citada como o porto seguro da transição. O sucesso de Greg Kroah-Hartman na gestão das versões LTS (Long Term Support) prova que o kernel possui um “segundo em comando” capaz de manter a cadência de lançamentos sem regressões catastróficas.
Além disso, a implementação de ferramentas de automação no Lore.kernel.org e o uso do utilitário b4 para gerenciar patches via e-mail reduziram drasticamente a dependência de um “juiz supremo” para questões triviais. O foco em CI (Continuous Integration), através de plataformas como o KernelCI, garante que, independentemente de quem assine o merge final, o código tenha passado por testes rigorosos de regressão em arquiteturas como ARM64 e x86_64.
E se o “conclave” falhasse?
Se o conclave de elite; o grupo de mantenedores seniores e o TAB; não existisse ou perdesse a legitimidade, o Linux enfrentaria o risco real de fragmentação (forking). Sem uma autoridade central validada, grandes corporações como Google (Android), Amazon (AWS) e Red Hat poderiam ser forçadas a manter versões divergentes e permanentes do kernel para garantir sua própria estabilidade, quebrando a premissa de um kernel único.
Tecnicamente, o impacto imediato seria o colapso do Merge window. Atualmente, Torvalds processa milhares de Pull Requests em duas semanas. Sem um sucessor, disputas de ego sobre qual subsistema de arquivos (como XFS vs Ext4) ou driver de rede teria prioridade paralisariam o suporte a novos hardwares, como os chipsets Intel Lunar Lake ou AMD Zen 6.
A ideia desse plano de contingência surgiu após a percepção de que a infraestrutura crítica da internet não poderia depender da saúde de um único indivíduo. O objetivo foi transformar o Linux de um “projeto de hobby” em uma instituição com governança distribuída.
O sabbatical de 2018 do Linus
O ano de 2018 foi o maior teste de estresse da governança do Linux. Após anunciar um afastamento temporário para ajustar seu comportamento pessoal, Linus passou o bastão para Greg Kroah-Hartman durante o desenvolvimento da versão 4.19.
O resultado técnico foi um “não-evento”: a versão foi lançada no prazo, sem regressões críticas em drivers de vídeo (como o i915 da Intel ou o amdgpu) e com a estabilidade de sistemas de arquivos intacta. Esse período provou empiricamente que a máquina de engenharia pode operar com eficiência mesmo sem a intervenção direta de Torvalds.
O arsenal de Greg: Automação como sucessão
A capacidade de Greg Kroah-Hartman de assumir o comando reside em seu fluxo de trabalho altamente automatizado, focado na “Greg-ificação” do processo:
stable-queue: Scripts que automatizam a aplicação de correções em subsistemas como o USB Stack e TTY layer.b4: Ferramenta que busca threads no lore.kernel.org e as transforma em séries de patches prontas para o Git, eliminando o erro humano na colagem manual de e-mails.get_maintainer.pl: Um utilitário que garante que qualquer patch chegue às mãos certas de forma granular.
Essa abordagem substitui o “julgamento de gosto” de Linus por métricas binárias de estabilidade e validação de scripts de sanidade em arquiteturas exóticas, como s390 ou m68k.
A polêmica da vez: Rust e a sustentabilidade humana
A sucessão está ligada à adoção de Rust. Veteranos que dominam o C puro temem que essa exigência crie uma barreira de entrada. No entanto, Linus tem sido o maior defensor dessa modernização para garantir a segurança de memória (memory safety). A preocupação é que, sem ele, a ala conservadora possa frear a evolução tecnológica, tornando o Linux menos competitivo contra microkernels modernos em ambientes de nuvem.
Vale a pena atualizar suas expectativas?
A resposta é sim. A transição para um modelo pós-Linus não será um evento explosivo, mas uma diluição gradual de autoridade.
- Recomendação: Se você gerencia infraestrutura crítica (como servidores XFS ou clusters KVM), acompanhe a governança do TAB, pois ela afetará a velocidade de resposta a CVEs.
- Estabilidade: Para usuários finais e empresas que utilizam ramos Stable/LTS, a sucessão é transparente. A máquina liderada por GKH e Sasha Levin já opera em “piloto automático” de alta confiabilidade há anos.
Veredito final: O Linux está tecnicamente preparado para a era pós-Torvalds, sustentado por ferramentas de automação e uma hierarquia que prioriza a estabilidade sobre o culto à personalidade.
A “Greg-ificação” do Kernel
A sucessão imediata para Greg Kroah-Hartman significaria uma mudança de estilo: sairia o julgamento subjetivo de Linus sobre o “bom gosto do código” e entraria uma abordagem focada em métricas de estabilidade e automação de patches.
Para as empresas que utilizam Linux em datacenters (como aquelas que rodam Kernel 6.1 LTS ou o novo 6.6 LTS), essa transição é vista como um aumento de segurança, pois GKH é o arquiteto por trás da infraestrutura de segurança que lida com vulnerabilidades críticas como Spectre e Meltdown.
