Wine 11.0 é a nova versão estável da camada de compatibilidade que executa aplicações e jogos do Windows no Linux, macOS e outros sistemas, agora consolidando um ano de desenvolvimento, com cerca de 6.300 mudanças e mais de 600 correções de bugs. O foco técnico desta geração é claro: WoW64 “novo” completo, NTSync para acelerar primitivas de sincronização no Linux e o adeus definitivo à ideia de “prefixo 32-bit puro” como caminho principal.
Detalhes o lançamento
Versão: Stable 11.0 | Jan 2026
O que muda para você
- WoW64 vira padrão de fato: paridade de recursos com o modo antigo, suporte a apps 16-bit e um caminho mais limpo para rodar binários 32-bit dentro de prefixos 64-bit.
- NTSync entra no jogo: Wine passa a usar o módulo do kernel Linux (disponível a partir do Linux 6.14) para melhorar performance de sincronização, com impacto prático em workloads pesados e jogos.
- Fim do conforto do
WINEARCH=win32: prefixos 32-bit puros entram em depreciação e não são suportados no novo WoW64.
A revolução WoW64
O Wine 11.0 marca a conclusão do novo modo WoW64, introduzido como experimental no Wine 9.0 e agora considerado totalmente suportado, com paridade de recursos em relação ao WoW64 antigo.
Os pontos que mais mudam a rotina de quem instala jogos e aplicativos:
- Suporte a aplicações 16-bit no novo WoW64, algo relevante para ferramentas legadas e instaladores antigos.
- Você pode forçar um prefixo 64-bit existente a operar no novo modo WoW64 usando
WINEARCH=wow64(desde que o prefixo tenha sido criado como 64-bit, que é o padrão). - Prefixos 32-bit puros (
WINEARCH=win32) ficam deprecados e não entram no novo WoW64.
⚠️ Alerta: prefixos 32-bit puros (WINEARCH=win32) estão deprecados no Wine 11.0 e não são suportados no novo WoW64. Se você depende de um prefixo assim para um jogo específico, planeje migração para um prefixo 64-bit com WoW64.
Adeus wine64: um loader para governar todos
O Wine 11.0 removeu o binário loader wine64. No lugar, ele usa um único loader wine que escolhe o modo correto com base no binário executado.
Na prática, isso reduz confusão, mas traz um detalhe importante: quando um programa possui versões 32-bit e 64-bit instaladas, o Wine prioriza 64-bit por padrão. Se você precisar forçar a versão 32-bit, use um caminho explícito, por exemplo:
# Executa o Notepad 32-bit dentro de um prefixo WoW64
wine 'c:\windows\syswow64\notepad.exe'NTSync: sincronização via kernel
O NTSync é o principal destaque de performance do Wine 11.0 no Linux. Quando disponível, o Wine passa a usar o módulo NTSync do kernel Linux para acelerar primitivas de sincronização, o que tende a beneficiar cenários com muita contenção de threads, chamadas frequentes de sincronização e cargas típicas de engines modernas.
Requisito de kernel: o módulo necessário passa a existir no Linux a partir do kernel 6.14.
Além do NTSync em si, o Wine 11.0 também melhora a base de threading e sincronização:
- Implementa mudanças de prioridade de thread no Linux e macOS.
- Implementa barreiras de sincronização do NTDLL, alinhando comportamento com o que aplicações Windows esperam.
Dica: em várias distros, o ajuste de prioridade no Linux fica limitado pelo nice hard limit. Para permitir que o Wine reduza o nice para valores negativos (por exemplo, até -5, que costuma ser suficiente), você pode precisar ajustar limites via limits.conf.
Exemplo típico de configuração (varia por distro e política do sistema):
# /etc/security/limits.conf
# Permite nice negativo para um usuário ou grupo específico
# Recomenda-se cautela: -5 costuma bastar; valores mais baixos não são recomendados.
usuario hard nice -5Gráficos e Wayland
O Wine 11.0 mexe em três pilares do stack gráfico: OpenGL/EGL, Vulkan, e a evolução do driver Wayland.
OSMesa saiu, EGL ganhou protagonismo
O Wine removeu a dependência do OSMesa e implementou o rendering de bitmap do OpenGL usando o runtime OpenGL acelerado por hardware. Ao mesmo tempo, o backend EGL foi estendido e agora é padrão no X11.
O GLX fica deprecado, mas segue disponível como fallback. Se você precisar forçar GLX, existe uma chave de registro:
; Força GLX no driver X11 do Wine
; Caminho: HKCU\Software\Wine\X11 Driver
; Chave: UseEGL = "N"Vulkan: mais peças Win32 e avanços no pipeline
O Wine 11.0 implementa extensões Vulkan voltadas a interoperabilidade com o ecossistema Win32, além de APIs relacionadas (incluindo D3DKMT). Ele também declara suporte à Vulkan API 1.4.335.
Um ponto técnico especialmente relevante no novo WoW64: o Wine consegue mapear buffers OpenGL em espaço de memória 32-bit usando extensões Vulkan quando disponíveis, melhorando compatibilidade em cenários específicos.
Wayland: ainda experimental, mas mais útil de verdade
O driver Wayland do Wine continua identificado como experimental, mas dá passos práticos:
- Suporte a janelas com recorte e color-key (shaped e color-keyed).
- Clipboard implementado.
- Suporte a métodos de entrada.
- Melhorias de performance em funções de windowing usando memória compartilhada para IPC.
Para usuários no desktop Linux, isso reforça a direção: Wayland deixa de ser “apenas um teste” e passa a ter um conjunto mínimo de recursos esperado em setups reais, ainda que não seja o destino final para todos os casos.
Hardware e periféricos
Em jogos, periféricos e conectividade contam tanto quanto FPS. O Wine 11.0 melhora especialmente HID/joysticks, force feedback e Bluetooth.
HID e controles
- Melhor compatibilidade com mais joysticks via backend hidraw, com opções por vendor e device no registro para optar pelo hidraw quando necessário.
- Melhorias de force feedback, inclusive em volantes e controles, com ganhos de compatibilidade e desempenho.
- Melhor suporte a gamepads na API Windows.Gaming.Input, inclusive quando SDL não está disponível ou está desativado.
Bluetooth com BlueZ no Linux
No Linux com BlueZ, o driver Bluetooth do Wine avança com:
- Scan e configuração de discoverability.
- Pareamento básico via API e wizard.
- Visibilidade de rádios e dispositivos (clássico e BLE).
- Conexões RFCOMM via winsock.
- Início de suporte a BLE GATT exposto via APIs Win32.
Impacto prático
O Wine 11.0 é uma versão com “cara” de plataforma: menos foco em um único componente e mais consolidação de arquitetura, desempenho e integração. Para Linux gaming, três impactos tendem a aparecer primeiro:
- Menos gargalos de sincronização com NTSync (quando o kernel 6.14+ e o módulo estiverem disponíveis).
- Experiência mais previsível com 32-bit dentro de prefixos 64-bit, graças ao WoW64 completo e ao loader único.
- Evolução do caminho Vulkan: além de suporte a Vulkan 1.4.335, há melhorias relevantes em Direct3D e bibliotecas auxiliares, incluindo decode H.264 via APIs de vídeo do D3D11 sobre Vulkan Video (exigindo renderer Vulkan).
No desktop, há ainda ajustes de integração com window manager no X11 e melhorias em fullscreen exclusivo e modo fullscreen do D3D, com efeitos especialmente visíveis em títulos antigos baseados em DDraw.
Pergunta direta para você (e para guiar testes reais): quais jogos específicos que você roda no Wine hoje dependem de anti-cheat ou têm histórico de problemas com threads e sincronização? A combinação WoW64 completo + NTSync pode mudar o comportamento nesses casos, mas o anti-cheat continua sendo o fator que mais derruba compatibilidade no mundo real.






