O socket imortal: por que a AMD está “ressuscitando” processadores de 9 anos atrás?

Plataforma antiga, custo novo: como a DDR5 empurrou gamers de volta ao AM4!

Escrito por
Emanuel Negromonte
Emanuel Negromonte é Jornalista, Mestre em Tecnologia da Informação e atualmente cursa a segunda graduação em Engenharia de Software. Com 14 anos de experiência escrevendo sobre...

Em um mundo onde a tecnologia vira “antiga” em dois ciclos de GPU, ver a AMD reativar a cadeia do AM4 em 2026 é quase uma ironia histórica. O socket lançado há quase uma década, que muitos já tratavam como encerrado, voltou ao centro do mercado porque o “novo normal” ficou caro demais. O gatilho é simples e brutal: DDR5 virou a barreira de entrada que está travando upgrades e PCs novos na faixa de custo que mais vende, o mainstream gamer.

Pense no cenário como o “carro clássico” da analogia. Imagine que, de repente, carros populares novos ficassem inviáveis porque o combustível sintético encareceu (a DDR5), e o sistema inteiro precisasse ser trocado para rodar com ele (plataforma nova). A solução do mercado não é romântica, é pragmática: voltar a produzir peças do modelo clássico, confiável e compatível com “gasolina comum” (a DDR4). O AM4 é esse tanque de guerra que a AMD está convocando de volta à ativa.

A confirmação oficial: não é sobra de estoque, é reabastecimento planejado

amd retorno am4 2026 ryzen 5000

O ponto mais importante aqui é que não se trata apenas de “queimar o que restou no canal”. Em uma conversa de bastidores no contexto da CES 2026, David McAfee, executivo da AMD ligado à estratégia de Ryzen no canal, deixou claro que existe um esforço ativo para aumentar oferta e “reintroduzir” CPUs no ecossistema AM4.

A frase que virou manchete é direta, e diz exatamente o que o público quer ouvir: “satisfy the demands of gamers… without having to rebuild their entire system.” Segundo Tom’s Hardware.

Em outras palavras: a AMD reconhece que, para muita gente, o upgrade “correto” em 2026 não é trocar placa-mãe, memória e CPU de uma vez. É colocar um processador mais forte no que já existe, ganhar fôlego real em jogos e adiar a reconstrução completa do PC para quando a curva de preço da memória permitir.

Por que a DDR5 virou o gargalo psicológico e financeiro do upgrade

O mercado de memória entrou em um ciclo de pressão que contaminou todo o custo de plataforma. O varejo passou a tratar RAM como item premium, com situações que beiram o absurdo, inclusive em kits de alta capacidade. Esse tipo de distorção reforça o comportamento de “não vou montar plataforma nova agora”, mesmo entre usuários dispostos a gastar.

Para a cadeia de suprimentos, o pano de fundo é ainda mais amplo: a demanda por memória para IA (em especial HBM) pressiona a indústria e contribui para um ambiente de preços firmes e expectativa de alta em segmentos de DRAM ao longo de 2026.

E aqui entra uma nuance obrigatória: DDR4 também subiu, e ninguém deveria comprar AM4 achando que está “imune” à inflação de memória. A diferença é que, mesmo subindo, DDR4 tende a permanecer mais acessível que DDR5 no custo total de plataforma, especialmente para quem já tem módulos reaproveitáveis ou encontra kits mais baratos no mercado local e usado.

O fator X3D: quando “um chip” resolve o que a plataforma nova encareceu

Se existe um motivo técnico para o AM4 continuar relevante em jogos, ele atende por um nome: 3D V-Cache.

O apetite do mercado não é apenas por “qualquer Ryzen antigo”. A demanda se concentra nos modelos que conseguem empurrar FPS e, principalmente, reduzir stutter e melhorar consistência de frame time em jogos CPU-bound. É por isso que os holofotes recaem sobre Ryzen 7 5800X3D e Ryzen 7 5700X3D, além de opções custo-benefício que continuam fazendo sentido.

O problema é que esses chips (especialmente os X3D) tiveram disponibilidade irregular e foram tratados como “fora de linha” em vários mercados, o que criou um vácuo perfeito para especulação, ágio e preços incoerentes. A reentrada de oferta, ainda que seja “reintrodução” e não uma arquitetura nova, é o tipo de movimento que pode normalizar o canal.

Os processadores que o mercado mais quer ver (de novo) em volume:

  • Ryzen 7 5800X3D
  • Ryzen 7 5700X3D
  • Ryzen 5 3600 (especialmente para upgrades baratos e PCs de entrada)

Contexto de mercado: AM4 maduro contra AM5 e Intel LGA 1851 como “taxa DDR5”

A comparação que importa em 2026 não é só “quem é mais rápido”. É quanto custa entrar no jogo.

  • AM4: plataforma madura, ampla variedade de placas-mãe no mercado, BIOS estável, ecossistema conhecido, e uso de DDR4. Para quem já tem uma base instalada (muita gente ainda está em Ryzen 2000 e 3000), faz sentido trocar apenas a CPU e, no máximo, ajustar RAM e cooler.
  • AM5: entrega caminho de upgrade e recursos mais novos, mas amarra o usuário na DDR5 e em placas-mãe tipicamente mais caras (mesmo em chipsets intermediários).
  • Intel LGA 1851: posicionada como plataforma moderna, também com foco em DDR5, o que torna o custo de entrada muito sensível ao ciclo de preços da memória, especialmente para builds budget e mid-range.

O ponto-chave é que, no auge da crise, o custo adicional não vem apenas da RAM. Ele vem do “combo”: memória cara + placa-mãe nova + CPU nova. O próprio relato do Tom’s Hardware aponta que, para muita gente, esse pacote facilmente passa de uma barreira psicológica pesada, tornando upgrades “CPU-only” e plataformas DDR4 muito mais atraentes.

O sinal mais forte de que o AM4 não morreu: placas-mãe novas, em 2026

Quando fabricante de placa-mãe volta a lançar produto para uma plataforma antiga, não é nostalgia. É leitura de demanda.

Um exemplo emblemático é o movimento de parceiros do ecossistema lançando placas AM4 novas para surfar a janela de oportunidade criada pela crise de DDR5, sinalizando que o mercado vê tração real no segmento Budget Gaming PC.

Isso importa porque “ter CPU disponível” sem “ter placa-mãe disponível” cria gargalo. A história de reavivar plataforma só funciona se o ecossistema inteiro acompanhar: CPUs em volume, placas-mãe suficientes e uma oferta minimamente saudável de DDR4.

Vale a pena comprar AM4 em 2026?

Depende do seu ponto de partida e do seu horizonte de upgrade. O raciocínio mais honesto é por cenários.

Faz muito sentido se você já está no AM4 (upgrade):

  • Você tem placa-mãe B450/B550/X470/X570 e quer ganhar desempenho real em jogos sem reconstruir o PC.
  • Você quer maximizar Custo-Benefício em curto prazo.
  • Seu objetivo é “mais FPS agora” e não “plataforma para 2029”.

Pode fazer sentido se você vai montar do zero (build budget), mas com cautela:

  • Se a diferença de custo total (placa-mãe + CPU + RAM) entre AM4 e AM5/1851 estiver grande o bastante para liberar orçamento para a GPU, SSD e fonte, o AM4 vira uma estratégia racional.
  • Você aceita que o caminho de upgrade é limitado (o “topo” da plataforma já é conhecido) e que o valor está em preço de entrada e maturidade.

Pode ser um mau negócio se:

  • O preço dos X3D estiver inflado por ágio e “estoque premium”. Nessa condição, o que era Custo-Benefício vira armadilha.
  • Você quer longevidade e upgrade path garantido. Nesse caso, AM5 tende a ser o caminho mais coerente, quando a memória deixar.

O que observar antes de decidir

  1. Preço real do kit de memória: compare DDR4 e DDR5 na mesma capacidade, e considere se você reaproveita módulos.
  2. Preço do “chip certo”: X3D bom com preço ruim destrói o argumento.
  3. Placa-mãe e BIOS: em AM4, evite placas muito antigas sem suporte robusto a CPUs finais e foque em chipsets maduros para o que você quer instalar.
  4. Perfil do seu jogo: títulos competitivos e CPU-bound tendem a se beneficiar mais de X3D e upgrades “cirúrgicos”.
  5. Risco de timing: se a AMD realmente reabastecer o canal, preços podem normalizar. Se você comprar no pico, paga o “imposto da escassez”.
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