Viver preso a tomadas, carregadores e power banks virou parte da rotina moderna. Seja no trabalho, em viagens ou até dentro de casa, a autonomia limitada das baterias atuais transformou o carregamento em uma espécie de obrigação diária. Smartphones potentes, telas maiores e conectividade constante evoluíram rapidamente, mas a tecnologia de baterias parece ter ficado estagnada no tempo.
É nesse cenário que surge a Donut Labs, uma empresa que vem chamando atenção ao apresentar avanços concretos em baterias de estado sólido, com promessas ousadas como carregamento completo em poucos minutos e autonomia que pode chegar a vários dias. Mais do que marketing, a tecnologia já foi demonstrada em aplicações reais, indicando que não se trata apenas de um conceito distante.
O momento também é simbólico. Com fabricantes e consumidores pressionando por mais eficiência energética e menor impacto ambiental, 2026 desponta como um possível ponto de virada. Se a tecnologia amadurecer como esperado, podemos estar diante do fim da chamada “ditadura dos carregadores”.
O que são baterias de estado sólido e como elas funcionam
As baterias de estado sólido diferem das baterias de íon-lítio tradicionais principalmente pelo tipo de eletrólito utilizado. Nas baterias atuais, o eletrólito é líquido ou em gel, responsável por permitir a movimentação dos íons de lítio entre o ânodo e o cátodo durante os ciclos de carga e descarga.
Na tecnologia de estado sólido, esse eletrólito líquido é substituído por um material sólido, que pode ser cerâmico, polimérico ou composto híbrido. Essa mudança estrutural traz uma série de vantagens técnicas importantes, incluindo maior densidade energética, estabilidade térmica superior e menor risco de falhas catastróficas.
Na prática, isso significa baterias menores, mais leves e capazes de armazenar mais energia no mesmo espaço. Para smartphones, isso se traduz em dias de uso longe da tomada. Para veículos elétricos, significa maior alcance e tempos de recarga drasticamente reduzidos.

Imagem: PhoneArena
A anatomia da bateria: Ânodo, cátodo e o fim do risco de explosão
Em uma bateria convencional, o ânodo geralmente é feito de grafite, enquanto o cátodo utiliza compostos de lítio, níquel, manganês ou cobalto. O uso de eletrólitos líquidos inflamáveis cria um risco inerente de superaquecimento, vazamentos e, em casos extremos, explosões.
As baterias de estado sólido permitem o uso de ânodo de lítio metálico, algo inviável em baterias líquidas por questões de segurança. Esse tipo de ânodo aumenta significativamente a densidade energética e reduz a degradação ao longo do tempo. Além disso, o eletrólito sólido não é inflamável, praticamente eliminando o risco de explosões.
Esse avanço é especialmente relevante para smartphones e veículos elétricos, onde segurança, durabilidade e confiabilidade são fatores críticos.
O avanço da Donut Labs: Nanotubos e serigrafia
O diferencial da Donut Labs não está apenas no uso do estado sólido, mas na forma como a empresa conseguiu tornar essa tecnologia viável em escala industrial. Um dos grandes obstáculos históricos sempre foi o custo de produção, que tornava essas baterias impraticáveis para o mercado de consumo.
A solução encontrada envolve o uso de nanotubos de carbono combinados com um processo de fabricação baseado em serigrafia. Essa técnica, amplamente utilizada na indústria gráfica e eletrônica, permite imprimir camadas funcionais com alta precisão e baixo custo, dispensando processos complexos e caros.
Além disso, a empresa firmou parceria com a Nordic Nano, integrando dióxido de titânio à estrutura das células. Esse material melhora a condução iônica e a estabilidade química, contribuindo para ciclos de carga mais rápidos e vida útil prolongada.
O resultado é uma tecnologia de baterias que pode ser produzida em larga escala sem os custos proibitivos que atrasaram o setor por décadas.
Por que demorou tanto? O desafio dos dendritos
Durante anos, as baterias de estado sólido esbarraram em um problema técnico complexo: os dendritos. Esses microcristais de lítio se formam durante os ciclos de carga e descarga, crescendo como agulhas microscópicas que podem atravessar o eletrólito.
Quando um dendrito alcança o cátodo, ocorre um curto-circuito interno, comprometendo a bateria e, em muitos casos, tornando-a inutilizável ou perigosa. Esse fenômeno inviabilizou inúmeros protótipos ao longo do tempo.
O avanço da Donut Labs está justamente no controle dessa formação. A combinação de nanotubos de carbono, eletrólito sólido otimizado e camadas impressas por serigrafia cria uma estrutura que inibe o crescimento dos dendritos. Isso garante estabilidade mesmo em cargas ultrarrápidas, algo essencial para aplicações modernas.
Da motocicleta Verge para o seu bolso
Um dos exemplos mais concretos do potencial dessa tecnologia foi apresentado em uma motocicleta elétrica da Verge, exibida na CES. Equipado com baterias desenvolvidas pela Donut Labs, o veículo demonstrou autonomia elevada, carregamento extremamente rápido e desempenho consistente, mesmo sob altas demandas energéticas.
Esse tipo de aplicação serve como prova de conceito em escala maior, validando a tecnologia antes de sua miniaturização para dispositivos como smartphones, drones e wearables. Se funciona de forma segura em uma motocicleta elétrica, o caminho para adaptação em celulares se torna muito mais curto.
Para o consumidor final, isso pode significar um salto radical na autonomia de smartphone, com aparelhos que duram vários dias longe da tomada e recarregam em minutos. Drones ganhariam maior tempo de voo, enquanto veículos elétricos poderiam ser carregados em intervalos comparáveis aos de um abastecimento tradicional.
Conclusão: O futuro da mobilidade é sólido
As baterias de estado sólido representam uma das maiores revoluções energéticas das últimas décadas. Ao resolver problemas históricos de segurança, densidade e custo, a Donut Labs demonstra que essa tecnologia finalmente está pronta para sair dos laboratórios e chegar ao mercado.
O impacto vai além da conveniência. Baterias mais eficientes significam menor descarte, ciclos de vida mais longos e redução do impacto ambiental associado à produção e ao consumo de energia. Em um mundo cada vez mais dependente de dispositivos móveis e mobilidade elétrica, essa evolução pode redefinir padrões de uso e sustentabilidade.
Se a promessa se concretizar, o carregador deixará de ser um item indispensável no bolso ou na mochila. E talvez, pela primeira vez em muito tempo, a bateria deixe de ser o ponto fraco da tecnologia moderna.
Você trocaria seu smartphone atual apenas por uma bateria muito melhor? Deixe sua opinião nos comentários e participe da discussão.
