Claude AI e criptografia: IA descobre falhas no HAWK e AES

Escrito por
Jardeson Márcio
Jardeson Márcio é Jornalista e Mestre em Tecnologia Agroalimentar pela Universidade Federal da Paraíba. Com 8 anos de experiência escrevendo no SempreUpdate, Jardeson é um especialista...

Entenda como o Claude Mythos da Anthropic encontrou falhas no HAWK e acelerou ataques ao AES.

A interseção entre inteligência artificial e segurança da informação alcançou um marco sem precedentes. A Anthropic revelou que o seu modelo Claude Mythos Preview desempenhou um papel central na condução de criptoanálise avançada de forma autônoma. Em um feito técnico inédito, o modelo identificou vulnerabilidades matemáticas e desenvolveu ataques práticos contra algoritmos que sustentam a proteção de dados global.

As descobertas divulgadas pela empresa envolvem dois pilares fundamentais da segurança digital: a recuperação de chave fim a fim contra o HAWK-256, um candidato do processo de padronização pós-quântica do NIST, e um ganho de velocidade expressivo de 200 a 800 vezes em um ataque contra o AES-128 reduzido para sete rodadas. O avanço destaca como a união entre Claude AI e criptografia pode auxiliar pesquisadores a encontrarem brechas teóricas em prazos drasticamente menores do que os métodos tradicionais.

Apesar da relevância dos termos envolvidos, é fundamental contextualizar esses resultados com sobriedade técnica. Nenhum sistema em produção foi comprometido e as aplicações reais do AES continuam perfeitamente seguras. O valor genuíno desta revelação não está em um pânico iminente sobre a quebra da internet, mas sim no surgimento da IA em criptografia como um superassistente capaz de mapear falhas estruturais antes que agentes maliciosos as explorem.

O avanço no HAWK-256: Criptografia pós-quântica sob o olhar da IA

O HAWK é um dos algoritmos de assinatura digital baseados em reticulados que avançou para a terceira rodada do processo de seleção de criptografia pós-quântica conduzido pelo NIST (National Institute of Standards and Technology). Projetado para resistir a futuros ataques de computadores quânticos, o algoritmo oferece versões para produção como o HAWK-512 e o HAWK-1024. Para incentivar a comunidade acadêmica a testar os limites do sistema, os criadores disponibilizaram o HAWK-256, um parâmetro de desafio com complexidade reduzida.

A recuperação direta da chave no HAWK é formulada através do problema de isomorfismo de reticulado do módulo de busca (smLIP), no qual o atacante precisa descobrir uma transformação oculta entre duas estruturas matemáticas. Pesquisas anteriores já haviam indicado que a presença de uma simetria matemática específica poderia reduzir a busca pela chave. No entanto, faltava encontrar a peça exata para explorar essa fragilidade. Foi nesse ponto que a Claude Mythos criptoanálise fez a diferença, identificando o automorfismo oculto necessário para construir o que os especialistas chamam de rede $\tau$-cocíclica.

Com a vulnerabilidade mapeada, o Claude Mythos Preview desenvolveu um ataque de recuperação de chave totalmente funcional. A implementação divulgada pela Anthropic atinge um tempo de execução impressionante: cerca de 3 horas e 42 minutos em um servidor de 96 núcleos. O script lê a chave pública, executa algoritmos de redução de rede e recupera um material de assinatura de 592 bytes funcionalmente idêntico à chave secreta original.

É vital enfatizar a diferença entre os cenários de teste e a vida real. O ataque bem-sucedido restringe-se exclusivamente ao parâmetro de desafio HAWK-256. Para os parâmetros de produção, como o HAWK-512 e HAWK-1024, o fator de trabalho estimado foi reduzido, mas os ataques permanecem completamente impraticáveis em escala computacional real. O resultado permite aos engenheiros do NIST ajustarem os parâmetros de segurança com antecedência, provando a eficiência do modelo preditivo.

43wUwNxl ai criptografia hawk aes anthropic
Imagem: TheHackerNews

Aceleração do ataque ao AES-128: O que muda nas 7 rodadas?

O Advanced Encryption Standard (AES) é o padrão de cifragem de blocos mais utilizado no mundo, presente desde a proteção de discos no Linux via LUKS até conexões seguras de redes governamentais. A versão AES-128 utiliza 10 rodadas consecutivas de substituição, permutação e mistura de dados para garantir que o texto claro se transforme em um bloco indecifrável. Na criptoanálise teórica, é prática comum estudar versões com número reduzido de rodadas para medir a margem de segurança restante do algoritmo.

Até então, os melhores ataques conhecidos contra o AES-128 reduzido para 7 rodadas utilizavam a estratégia de “encontro no meio” (meet-in-the-middle), trocando uso massivo de memória por poder computacional. Uma das etapas mais lentas desse processo exigia testar repetidamente uma tabela de 256 valores possíveis para adivinhar estados intermediários da cifra.

A contribuição inédita promovida pela tecnologia do Claude AI aplicada à criptografia foi a descoberta de uma impressão digital invariante batizada pelos pesquisadores de Ponte de Möbius. Como essa propriedade matemática permanece constante durante o cálculo intermediário, o ataque desenvolvido pelo modelo elimina completamente a necessidade da etapa de adivinhação de 256 caminhos. O resultado é um ganho de desempenho expressivo, tornando o processo de 200 a 800 vezes mais rápido do que os métodos anteriores.

Nota técnica: Apesar da aceleração formidável demonstrada pela Anthropic Claude cibersegurança, o ataque contra o AES-128 exige obter cerca de $2^{105}$ textos simples escolhidos (chosen plaintexts) criptografados com a mesma chave. Essa exigência é puramente acadêmica e impossível de ser realizada em redes reais. O AES-128 completo de 10 rodadas continua intacto e seguro.

O papel dos humanos, os custos e o benchmark CryptanalysisBench

O desenvolvimento dessas descobertas não ocorreu de forma puramente mágica ou instantânea. A Anthropic empregou um ambiente multiagente onde o modelo operou por aproximadamente 60 horas no caso do HAWK-256 e três dias para encontrar a Ponte de Möbius no AES. O consumo computacional para alcançar os resultados foi massivo, superando a marca de 1 bilhão de tokens de saída e acumulando um custo estimado de US$ 100.000 em chamadas de API.

Outro fator determinante revelado pela empresa foi a atuação humana. A IA exigiu orientação e gerenciamento de projeto de pesquisadores para não desviar do objetivo — em um dos cenários, o modelo inicial chegou a se recusar a interagir, alegando que “melhorar o AES era impossível”. Apenas após questionamentos direcionados e insistência técnica do operador a IA continuou a busca matemática.

O grande gargalo da pesquisa residiu na verificação e validação dos resultados. Embora a IA tenha gerado as hipóteses e códigos de teste rapidamente, dois pesquisadores humanos seniores levaram quase um mês para analisar formalmente as provas matemáticas, reproduzir os artefatos em C, Python e Rust, e confirmar que os métodos estavam corretos.

Essas revelações sucedem a publicação do CryptanalysisBench, um benchmark técnico projetado por pesquisadores da ETH Zurich, Universidade de Haifa e Anthropic. O teste avaliou a capacidade de modelos de linguagem em resolver 191 tarefas de segurança. Modelos de última geração como o Mythos 5 já conseguem quebrar até 86% dos esquemas criptográficos simplificados, sinalizando que a automação da criptoanálise avançada é uma realidade irreversível.

Conclusão e o futuro da cibersegurança com IA

A demonstração prática de como a união do Claude AI e criptografia pode descobrir simetrias ocultas em redes pós-quânticas e eliminar gargalos históricos em algoritmos consolidados marca o início de uma nova era. A inteligência artificial deixa de ser apenas uma ferramenta para geração de código básico e assume o papel de um co-pesquisador em matemática pura, capaz de explorar espaços de busca complexos que humanos levariam anos para mapear.

Para a comunidade de código aberto, administradores de sistemas e profissionais de segurança cibernética, a mensagem é de otimismo fundamentado. O fato de que essas ferramentas estão sendo utilizadas sob divulgações responsáveis permite que padrões como o HAWK e novas cifras pós-quânticas sejam fortalecidos antes de sua implantação em massa na infraestrutura global.

Compartilhe este artigo
Jardeson Márcio é Jornalista e Mestre em Tecnologia Agroalimentar pela Universidade Federal da Paraíba. Com 8 anos de experiência escrevendo no SempreUpdate, Jardeson é um especialista em Android, Apple, Cibersegurança e diversos outros temas do universo tecnológico. Seu foco é trazer análises aprofundadas, notícias e guias práticos sobre segurança digital, mobilidade, sistemas operacionais e as últimas inovações que moldam o cenário da tecnologia.