CVE-2026-22769: Falha crítica 10.0 no Dell RecoverPoint

Falha crítica CVE-2026-22769 atinge o Dell RecoverPoint com nota máxima 10.0 e expõe ambientes de máquinas virtuais a exploração zero-day sofisticada com backdoor GRIMBOLT e técnicas avançadas de evasão.

Escrito por
Jardeson Márcio
Jardeson Márcio é Jornalista e Mestre em Tecnologia Agroalimentar pela Universidade Federal da Paraíba. Com 8 anos de experiência escrevendo no SempreUpdate, Jardeson é um especialista...

Imagine uma chave mestra esquecida dentro do código de um sistema de recuperação de desastres, acessível silenciosamente por atacantes durante mais de um ano. Essa é a dimensão do problema revelado com a CVE-2026-22769, uma vulnerabilidade com pontuação máxima 10.0 no CVSS que afetou o Dell RecoverPoint para VMs.

A falha foi explorada como exploit zero-day Dell pelo grupo de espionagem UNC6201 antes da divulgação pública e da disponibilização de correção. A investigação conduzida pela Mandiant identificou uma campanha altamente direcionada, com foco em persistência de longo prazo dentro de ambientes corporativos.

O Dell RecoverPoint é amplamente utilizado em infraestruturas de virtualização para replicação contínua de dados e recuperação de desastres. Comprometer esse componente significa atingir o núcleo da estratégia de resiliência da organização. Não se trata apenas de acesso a um servidor, mas da possibilidade de manipular o próprio mecanismo responsável por restaurar operações após incidentes críticos.

A CVE-2026-22769 representa um cenário de alto risco para administradores de sistemas, equipes de Blue Team e profissionais de segurança em máquinas virtuais.

O que é a CVE-2026-22769 e por que ela é tão perigosa?

A CVE-2026-22769 recebeu pontuação CVSS 10.0, o nível máximo da escala de severidade. Essa classificação indica exploração remota via rede, sem necessidade de autenticação prévia e com impacto total sobre confidencialidade, integridade e disponibilidade.

A origem da Dell RecoverPoint vulnerabilidade está na presença de credenciais embutidas, também chamadas de hardcoded credentials, no componente Apache Tomcat Manager presente no appliance virtual.

Credenciais embutidas são combinações de usuário e senha inseridas diretamente no código da aplicação. Quando descobertas, permitem acesso administrativo irrestrito sem depender de autenticação legítima configurada pelo cliente.

No caso da CVE-2026-22769, o endpoint administrativo do Tomcat, incluindo caminhos como /manager/text/deploy, podia ser explorado com essas credenciais fixas. Isso permitia ao atacante:

• Implantar aplicações maliciosas
• Executar código remotamente
• Criar web shells
• Instalar mecanismos de persistência

Como o RecoverPoint opera com privilégios elevados e integração direta com ambientes de virtualização e armazenamento, o impacto se estende para toda a infraestrutura.

cibercriminosos-exploram-vulnerabilidade-de-driver-da-dell
Imagem: The Hacker News

Produtos afetados e versões seguras

Ambientes executando versões vulneráveis do Dell RecoverPoint para VMs estavam expostos à exploração remota.

Versões afetadas
• Dell RecoverPoint for VMs 6.0.x anteriores ao hotfix de segurança

Versão segura recomendada
• 6.0.3.1 HF1 ou superior

Administradores devem validar imediatamente a versão instalada e revisar logs históricos para identificar possíveis acessos indevidos anteriores à aplicação da correção.

A anatomia do ataque: Do SLAYSTYLE ao GRIMBOLT

A exploração da CVE-2026-22769 seguiu uma cadeia técnica bem estruturada, combinando acesso inicial trivial com persistência sofisticada.

Exploração do endpoint do Tomcat

Com as credenciais embutidas, os atacantes utilizaram o endpoint administrativo do Tomcat para realizar o deploy de um pacote WAR malicioso.

Esse processo é legítimo dentro do funcionamento do servidor de aplicações. Justamente por isso, a atividade pode passar despercebida em ambientes sem monitoramento aprofundado.

Implantação de web shell

Após o deploy, foi instalada uma web shell conhecida como SLAYSTYLE.

Uma web shell é um script que permite ao invasor executar comandos remotamente através de requisições HTTP. Na prática, funciona como um terminal remoto escondido dentro da aplicação.

Esse estágio garante controle inicial e coleta de informações sobre o ambiente.

O backdoor GRIMBOLT e a persistência

O passo seguinte foi a implantação do backdoor GRIMBOLT, responsável por manter acesso contínuo ao sistema comprometido.

Um backdoor é um mecanismo de acesso oculto que sobrevive a reinicializações e remoções superficiais. Ele garante que o atacante possa retornar ao ambiente mesmo após intervenções administrativas.

O GRIMBOLT foi compilado em C# utilizando técnica de Ahead-of-Time Compilation, AOT. Diferentemente de aplicações .NET tradicionais que dependem de assemblies interpretados, o binário gerado é nativo.

Essa abordagem oferece vantagens relevantes para o atacante:

• Dificulta engenharia reversa
• Reduz assinaturas comuns associadas a .NET
• Complica análise estática e dinâmica

Para equipes de resposta a incidentes, isso significa maior esforço em análise forense e identificação de comportamento malicioso.

O backdoor GRIMBOLT também possuía capacidade de execução remota de comandos e comunicação com infraestrutura de comando e controle.

Estratégias de evasão: NICs fantasmas e manipulação de tráfego

A exploração da CVE-2026-22769 não se limitou à execução remota. O grupo empregou técnicas avançadas para reduzir rastros e evitar detecção.

Interfaces de rede temporárias

Os operadores criavam interfaces de rede temporárias dentro do sistema comprometido. Essas NICs eram utilizadas para comunicação maliciosa e posteriormente removidas.

Essa técnica reduz evidências persistentes e dificulta análises baseadas em configurações de rede estáticas.

Em ambientes virtualizados Linux, a criação dinâmica de interfaces pode passar despercebida se não houver monitoramento contínuo de eventos do sistema.

Redirecionamento de porta via iptables

Outra técnica observada foi o redirecionamento da porta 443 para 10443 utilizando iptables.

Na prática, conexões HTTPS aparentemente legítimas eram redirecionadas internamente para serviços controlados pelo atacante. Isso permite mascarar tráfego de comando e controle dentro de fluxos comuns.

Para profissionais focados em segurança em máquinas virtuais, esse detalhe é crítico. Monitorar apenas portas expostas externamente não é suficiente. É necessário inspecionar regras de NAT e redirecionamento interno.

Como proteger seu ambiente de virtualização

Diante da gravidade da CVE-2026-22769, a mitigação deve ser imediata e estruturada.

Atualização obrigatória

A primeira ação é atualizar para a versão 6.0.3.1 HF1 ou superior do Dell RecoverPoint para VMs.

Essa atualização remove as credenciais embutidas e corrige o vetor principal de exploração.

Segmentação e restrição de acesso

Boas práticas incluem:

• Isolar o appliance em VLAN dedicada
• Restringir acesso administrativo a IPs confiáveis
• Bloquear exposição direta à internet
• Limitar acesso ao Tomcat Manager

Segmentação adequada reduz drasticamente a superfície de ataque.

Monitoramento de infraestrutura crítica

Dispositivos de borda e appliances frequentemente não suportam agentes EDR tradicionais. Por isso, recomenda-se:

• Monitoramento de logs do Tomcat
• Auditoria de regras iptables
• Verificação de novas interfaces de rede
• Inspeção periódica de diretórios de deploy

Ferramentas de NDR e monitoramento de tráfego lateral são essenciais para detectar comportamentos anômalos.

Caça a indicadores de comprometimento

Mesmo após aplicar a correção, é fundamental verificar:

• Arquivos WAR desconhecidos
• Binários suspeitos compilados recentemente
• Processos executando com privilégios elevados sem justificativa
• Conexões de saída incomuns

A atualização corrige a vulnerabilidade, mas não remove automaticamente um atacante já estabelecido.

Conclusão: O perigo invisível nos sistemas de infraestrutura

A CVE-2026-22769 demonstra como uma decisão insegura no desenvolvimento, como credenciais embutidas no código, pode se transformar em porta de entrada para operações sofisticadas de espionagem.

A Dell RecoverPoint vulnerabilidade expôs um componente central da estratégia de recuperação de desastres de inúmeras organizações. Quando sistemas de resiliência se tornam vetores de ataque, o impacto potencial é sistêmico.

O exploit zero-day Dell explorado pelo UNC6201 reforça uma realidade incômoda. Infraestruturas críticas, muitas vezes fora do radar tradicional de segurança, tornaram-se alvos prioritários.

Compartilhe este artigo