O Debian ajuda a sustentar uma parte considerável da infraestrutura digital do planeta, mas há um pedaço crítico dessa engrenagem que parece ter ficado preso no tempo: o seu Bug Tracker. Em um texto direto e desconfortavelmente honesto, Jussi Pakkanen (criador do Meson e mantenedor no Debian) expõe um choque clássico de projetos maduros, a tensão entre tradição e UX (User Experience), e a conta que chega quando “sempre foi assim” vira barreira de entrada.
E-mail em 2025: o operador de telégrafo voltou
O ponto central da crítica é simples e difícil de defender com seriedade: no Debian, ações rotineiras de triagem, como fechar, taguear, marcar duplicata ou ajustar estado de um bug, ainda dependem de e-mail com comandos em sintaxe específica. Você até consegue visualizar bugs pela web, mas para “operar” o sistema, é obrigado a sair do navegador e virar um humano digitando instruções que um programa poderia preencher com precisão.
A analogia que explica isso sem esforço é a do telégrafo: gerenciar bugs no Debian hoje se parece com tentar fazer um PIX mandando um telegrama. Em vez de clicar em “Pagar”, você redige uma mensagem com a sintaxe exata, envia para o endereço certo e torce para não ter errado uma vírgula. Enquanto o ecossistema inteiro normalizou interfaces ricas (GitHub, GitLab e afins), o Debian ainda exige reflexos de “operador”.
Tradição que vira barreira de entrada
Pakkanen não critica o uso de e-mail como opção, ele critica o e-mail como exclusividade. A frustração dele é prática, não filosófica: cada edição vira um ritual de “abrir documentação, relembrar comando, acertar endereço, cruzar os dedos”. Se o comando falha por sintaxe, nada acontece. Se o e-mail vai para o lugar errado, a chance de dano colateral existe. E quando o caminho padrão para contribuir exige um conjunto de manias e macetes, o projeto paga com desistências silenciosas.
O efeito colateral é previsível: desenvolvedores experientes criam scripts próprios, wrappers, fluxos pessoais. Só que isso gera uma coleção de “ferramentas paralelas” para tarefas comuns, o oposto de um onboarding saudável. Nos comentários do próprio post, alguém lembra do utilitário CLI “bts”. A resposta de Pakkanen é um recado de governança e produto: um bug tracker precisa funcionar bem no navegador, sem “se”, “mas” ou “talvez”. Ferramentas extras podem existir, mas devem complementar uma base usável, não substituí-la.
A experiência que ainda desperdiça seu tempo
Há um detalhe que torna a queixa mais humana (e mais irritante): o sistema ainda notifica por e-mail a cada microação. Ou seja, você já é obrigado a usar e-mail para executar comandos, e ainda ganha uma enxurrada de mensagens como “confirmação” de tudo o que fez. Filtrar isso com regras é possível, mas é outra camada de trabalho empurrada para o usuário, e isso é o oposto de boa UX.

Projetos de software livre frequentemente aceitam algum atrito, porque “alguém precisa fazer o trabalho”. O problema é quando o atrito não está no problema técnico real, mas na interface de controle. Aí o esforço vira imposto, cobrado de todo mundo, o tempo todo.
Segurança por obscuridade não é segurança
A parte mais alarmante da crítica está em segurança. Segundo Pakkanen, a interface por e-mail é amplamente aberta e permite que praticamente qualquer pessoa envie comandos para alterar bugs, sem uma autenticação robusta que passe confiança. Ele chama isso pelo nome correto: “security through obscurity”, a crença de que o sistema é “seguro” porque pouca gente sabe como abusar dele.
Em 2025, isso soa como um paradoxo perigoso: o sistema operacional que “roda o mundo” depender de um fluxo de controle que não trata identidade e autorização como primeira classe. Mesmo que o risco real seja mitigado por cultura, vigilância e convenções sociais, esse tipo de fundamento técnico não deveria depender de bons modos.
O caminho pragmático: modernizar sem quebrar o legado
A proposta de Pakkanen evita a fantasia comum do “grande salto” (migrar tudo para outro tracker de uma vez). Ele assume o cenário real: o Debian é grande, tem integrações antigas e automações dependentes do fluxo atual. Um “Big Flip of the Switch” custa caro e costuma falhar.
A alternativa é incremental e, justamente por isso, plausível:
- Criar uma casca web moderna (um frontend) que leia e apresente o estado dos bugs em formato rico.
- Permitir que usuários registrados executem ações comuns via cliques (fechar, duplicar, ajustar tags, etc.).
- Fazer essa UI traduzir cliques em e-mails de comando para o backend legado, sem exigir que o humano memorize sintaxe.
- Abençoar esse serviço como caminho oficial dentro do domínio do Debian.
- Endurecer o backend para aceitar comandos apenas da UI e de contribuidores autenticados, reduzindo a superfície de abuso.
A visão é pragmática: primeiro melhora a usabilidade e a porta de entrada, depois (se houver fôlego) discute-se reescrever ou substituir o backend. É a diferença entre “reformar a casa” e “demolir o quarteirão”.
Governança: o custo de não ter dono de produto
No fundo, a discussão é de governança. O Debian historicamente prioriza estabilidade, processos e consenso. Isso é parte do seu valor. Mas um serviço central como o Bug Tracker também é produto, com usuários, jornada, fricção e desistência. Quando ninguém tem recursos, mandato ou tempo para tratar isso como produto, a tradição vira inércia. E a inércia vira custo: menos triagem, menos bugs atualizados, menos novos mantenedores ficando.
A provocação de Pakkanen não é “abandonem o Debian”, é “parem de normalizar que contribuir precise do manual do telégrafo”.
