O filme um espírito atrás de mim de David Koepp usa a tradição da comédia de fantasmas americanos como ponto de partida para um filme que é genuinamente interessante como estudo do personagem de Bertram Pincus, um dentista nova-iorquino que é tão deliberadamente desagradável com todo mundo ao redor que a revelação de que ele pode ver e falar com fantasmas parece inicialmente um castigo e não um presente. Essa inversão de expectativa, onde o protagonista de uma comédia romântica é alguém que você precisaria ter uma razão muito boa para torcer por ele, é o que torna Ghost Town mais ambicioso do que a sinopse sugere.

A transformação de Pincus ao longo do filme
A trajetória de Pincus de dentista antissocial que faria qualquer coisa para não ter que interagir com ninguém para alguém que genuinamente se importa com as pessoas que o cercam é a espinha dorsal do filme, e David Koepp e David Diamond escreveram o roteiro com suficiente coerência psicológica para que cada passo dessa transformação pareça motivado internamente em vez de determinado pela necessidade do roteiro de chegar a um final feliz. A revelação sobre por que Pincus se tornou tão hermético é entregue com uma delicadeza que a comédia convencional raramente tenta, e Gervais recebeu esse material com uma seriedade que não eliminava o humor mas que adicionava peso ao que estava em jogo.
O filme usa Nova York com uma especificidade que vai além de cenário genérico de comédia romântica americana, com locações que aproveitam a verticalidade da cidade e a coexistência de pessoas completamente diferentes num mesmo espaço que define a experiência urbana nova-iorquina. Os apartamentos de Upper West Side, o Museu de História Natural onde Gwen trabalha e as ruas onde os fantasmas circulam entre os vivos criam uma topografia específica que Koepp usa para mostrar como Pincus e Gwen habitam espaços adjacentes sem nunca realmente se encontrarem antes da intervenção sobrenatural.
A premissa e a lógica interna
Um dos méritos técnicos de Ghost Town é a consistência com que estabelece e mantém as regras de seu universo. Os fantasmas só podem ser vistos por Pincus; eles não conseguem tocar objetos físicos; ficam presos aos lugares onde morreram ou onde têm pendências; e desaparecem quando a pendência é resolvida. Essas regras são estabelecidas cedo e nunca violadas por conveniência de roteiro.
Essa disciplina lógica é o que permite que a comédia funcione, já que o humor depende de o espectador entender exatamente o que é possível e o que não é dentro daquele mundo.
O arco de Bertram Pincus é construído com uma paciência que a comédia de estúdio raramente permite, com o personagem resistindo à mudança durante boa parte do filme e cedendo apenas quando o roteiro esgota todas as alternativas. Gervais interpreta essa resistência com uma teimosia que torna a eventual transformação mais significativa do que seria numa estrutura de conversão rápida.
O momento em que Pincus finalmente admite que se importa com alguém é entregue com um desconforto físico visível, como se o personagem estivesse fazendo algo que contradiz sua natureza inteira.
David Koepp e o equilíbrio entre humor e emoção
Koepp, que havia escrito alguns dos maiores blockbusters de Hollywood, demonstrou em Ghost Town uma habilidade diferente daquela que sua reputação sugeria. O filme não tem sequências de ação, não depende de espetáculo e constrói tudo sobre diálogo e sobre a interação entre três atores.
Essa mudança de registro demonstra que a competência estrutural que Koepp havia desenvolvido escrevendo cinema de grande escala era transferível para material íntimo, e Ghost Town permanece como o melhor argumento a favor de suas habilidades como diretor.
Filmes com premissas de comédia sobrenatural enfrentam uma barreira específica de expectativas, o gênero tem um histórico de usar a premissa como desculpa para humor de situação sem investimento real no drama emocional subjacente. Ghost Town surpreende porque Koepp trata a capacidade de Pincus de ver fantasmas como consequência que tem peso real na vida do personagem, com os fantasmas de Nova York sendo ao mesmo tempo fonte de humor e de obrigação moral que força Pincus a sair da casca de indiferença que havia construído ao redor de si mesmo. Essa seriedade de propósito dentro de uma estrutura de comédia é o que a crítica reconheceu e o que torna o filme satisfatório em mais de uma dimensão.
A ambientação em Manhattan permite uma piada visual recorrente que funciona como comentário sobre a cidade, com Nova York tão densamente povoada que a quantidade de fantasmas circulando pelas ruas rivaliza com a de pessoas vivas. Koepp usa essa densidade para criar sequências de comédia física onde Pincus precisa atravessar multidões de mortos que o reconhecem e o perseguem, numa versão sobrenatural do desconforto urbano que qualquer morador de metrópole reconhece. As regras do universo são estabelecidas cedo e nunca violadas por conveniência de roteiro, e essa disciplina lógica é o que permite que a comédia funcione.
O filme funciona particularmente bem para espectadores que apreciam comédia construída sobre personagem em vez de situação, oferecendo humor que nasce de quem as pessoas são em vez de do que acontece com elas. Essa abordagem exige mais paciência do público mas produz recompensa emocional que a comédia de premissa raramente alcança.
