Fim do iWork: Apple substitui marca histórica pelo novo Apple Creator Studio

Apple encerra marca iWork após 20 anos e aposta no Apple Creator Studio

Escrito por
Jardeson Márcio
Jardeson Márcio é Jornalista e Mestre em Tecnologia Agroalimentar pela Universidade Federal da Paraíba. Com 8 anos de experiência escrevendo no SempreUpdate, Jardeson é um especialista...

Quem acessa o site da Apple hoje em busca da tradicional seção iWork pode ter uma surpresa: ela simplesmente não está mais lá. Sem anúncios grandiosos ou eventos dedicados, a empresa removeu o branding que acompanhou usuários de Mac, iPad e iPhone por mais de duas décadas.

O que parece um simples ajuste visual, na prática, representa o fim do iWork como marca. Em seu lugar, surge o Apple Creator Studio, um novo guarda-chuva que reorganiza a suíte de produtividade da empresa dentro de um modelo alinhado às tendências atuais do mercado, especialmente o de assinaturas e serviços baseados em inteligência artificial.

Este artigo analisa essa transição, relembra o legado do pacote lançado em 2003 com o Keynote e avalia o impacto da nova estratégia para usuários e para o mercado de software.

O fim silencioso do prefixo “i”

Durante os anos 2000, o prefixo “i” foi sinônimo de inovação. iMac, iPod, iTunes, iPhoto, iBooks e, claro, iWork. O “i” representava internet, individualidade e integração.

Mas, ao longo da última década, a Apple começou a abandonar gradualmente essa identidade. iBooks virou Apple Books, iPhoto foi incorporado ao Photos, e o próprio iTunes foi fragmentado em serviços como Apple Music e Apple TV. Agora, a remoção do nome iWork confirma que o prefixo faz parte de uma era que a empresa considera encerrada.

Essa mudança não é apenas estética. Ela sinaliza uma estratégia mais ampla: substituir nomes conceituais por marcas centralizadas no ecossistema Apple. Em vez de produtos independentes com identidade própria, temos serviços integrados sob um mesmo rótulo corporativo.

iWork

A herança do iWork: Como o pacote desafiou o Microsoft Office

Quando o Keynote foi apresentado em 2003, ele não era apenas mais um software de apresentações. Era a ferramenta que o próprio Steve Jobs utilizava em suas icônicas keynotes. Dois anos depois, chegaram Pages e Numbers, formando oficialmente o pacote iWork.

Naquela época, o domínio do Microsoft Office era praticamente absoluto. Word, Excel e PowerPoint eram padrões corporativos e educacionais. A Apple optou por uma abordagem diferente: foco em design, simplicidade e integração com o macOS.

O Pages apostava em layouts elegantes e tipografia refinada. O Numbers introduziu uma interface mais visual e menos intimidadora que o Excel. O Keynote, por sua vez, rapidamente ganhou reputação como ferramenta superior em design e fluidez de animações.

Com o tempo, especialmente após 2013, a Apple tornou o pacote gratuito para novos dispositivos. Isso consolidou a suíte de produtividade Apple como alternativa viável para milhões de usuários domésticos, estudantes e profissionais criativos.

O fim do iWork, portanto, não representa o desaparecimento dos aplicativos, mas o encerramento de uma identidade que marcou uma geração.

Apple Creator Studio: O novo lar da produtividade

Com a criação do Apple Creator Studio, a Apple reorganiza Pages, Numbers e Keynote dentro de um modelo mais amplo e orientado a serviços.

Segundo a nova estrutura, os aplicativos continuam disponíveis gratuitamente em suas versões básicas. No entanto, recursos avançados, especialmente aqueles impulsionados por Apple Intelligence, passam a integrar o plano de assinatura do Apple Creator Studio, anunciado por US$ 12,99 por mês.

A mudança não é apenas de nome. É de posicionamento.

Se antes a suíte de produtividade Apple era apresentada como um conjunto de aplicativos inclusos no ecossistema, agora ela faz parte de um pacote voltado para criadores de conteúdo, profissionais e usuários que demandam recursos avançados de automação e inteligência artificial.

Isso coloca a empresa em linha direta com concorrentes que já adotam o modelo de assinatura, como o Microsoft 365 e o Google Workspace.

O que muda para o usuário comum

Para o usuário que utiliza Pages, Numbers e Keynote para tarefas básicas, pouca coisa muda inicialmente. A edição de textos, planilhas e apresentações permanece gratuita e integrada ao iCloud.

A principal diferença está nas funcionalidades exclusivas para assinantes do Apple Creator Studio. Entre elas estão ferramentas avançadas de geração de conteúdo com Apple Intelligence, como:

• Sugestões automáticas de estrutura para documentos complexos
• Criação assistida de gráficos e análises em planilhas
• Geração inteligente de slides com base em textos ou resumos
• Ajustes automáticos de design e consistência visual

Na prática, a Apple está criando dois níveis de experiência: uma camada gratuita tradicional e outra premium, centrada em IA.

Essa estratégia reforça a tendência de “assinaturização” do software, em que recursos essenciais permanecem livres, mas diferenciais competitivos passam a exigir pagamento recorrente.

Impacto no mercado e conclusão

O fim do iWork como marca é simbólico. Ele representa o encerramento de uma fase em que softwares eram vendidos ou distribuídos como produtos estáticos. Hoje, a lógica é diferente: serviços contínuos, atualizações frequentes e integração profunda com inteligência artificial.

O Apple Creator Studio não é apenas uma nova etiqueta. Ele posiciona a suíte de produtividade Apple dentro da economia de serviços digitais, onde receita recorrente é prioridade estratégica.

Para o mercado, isso significa maior convergência entre as grandes plataformas. Microsoft investe pesado em IA no Office, Google amplia recursos inteligentes no Workspace, e agora a Apple integra Apple Intelligence como diferencial competitivo.

Para o usuário, a questão é mais complexa.

Por um lado, a integração de IA pode realmente aumentar produtividade e simplificar tarefas complexas. Para criadores de conteúdo, educadores e profissionais criativos, as novas ferramentas podem justificar o valor mensal.

Por outro lado, há um sentimento inevitável de nostalgia. O iWork representava uma alternativa elegante, simples e, nos últimos anos, gratuita. Ele simbolizava uma época em que a Apple vendia hardware e oferecia software como complemento estratégico.

Agora, o foco é outro. O hardware continua central, mas o ecossistema de serviços cresce como fonte de receita.

A transição para o Apple Creator Studio deixa uma pergunta em aberto para leitores e usuários de Mac, iPad e iPhone: você prefere o modelo tradicional, com aplicativos completos sem custo adicional, ou acredita que as novas funções baseadas em Apple Intelligence justificam a mudança para assinatura?

O mercado aponta para o segundo caminho. Mas o apego emocional ao iWork mostra que, para muitos, esta não é apenas uma alteração de branding, e sim o fim de uma era.

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