O Linux From Scratch (LFS) é, essencialmente, o “manual de instruções” para quem deseja construir seu próprio sistema operacional do zero, compilando cada pacote a partir do código-fonte. Ele é o projeto de cabeceira para quem quer entender como o kernel se comunica com as bibliotecas e como o sistema “ganha vida” no boot.
A decisão de abandonar o System V não é apenas técnica, mas de sobrevivência do projeto. Bruce Dubbs, líder do LFS, citou a carga de trabalho massiva: entre setembro de 2025 e fevereiro de 2026, foram mais de 1.150 commits apenas no Beyond LFS (BLFS). Manter dois sistemas de inicialização distintos tornou-se inviável para uma equipe de voluntários.
System V vs. systemd: O que muda estruturalmente?
Para o usuário que segue o livro, a experiência de montagem mudará drasticamente. Abaixo, detalhamos as diferenças fundamentais que o LFS costumava ensinar e o que prevalecerá:
| Característica | System V (Antigo LFS) | systemd (Novo) |
| Arquitetura | Baseada em scripts shell (Bash). | Baseada em arquivos de configuração (Unit files). |
| Execução | Serial (um serviço por vez). | Paralela (através de socket activation). |
| Transparência | Alta: você lê exatamente o que o script faz. | Média: o binário gerencia a lógica interna. |
| Dependências | Gerenciadas manualmente pela ordem numérica dos scripts. | Resolvidas automaticamente pelo sistema. |
| Complexidade | ~22 arquivos em C e 50 scripts. | +1.600 arquivos em C e milhares de dados. |
No modelo antigo (SysV), o usuário do LFS criava manualmente os links simbólicos em /etc/rc.d/rc3.d/. No novo padrão (systemd), o foco será no domínio do comando systemctl e na sintaxe das unidades de serviço.
Principais novidades e o “Porquê” agora
- Dependências de Interface Gráfica: Ambientes como GNOME e o futuro KDE Plasma estão exigindo APIs específicas do systemd (como logind) que são extremamente difíceis de emular no System V sem camadas complexas de “shims”.
- Fim da Duplicidade: O esforço de testar 88 pacotes base e mais de 1.000 pacotes extras em dois ambientes de boot diferentes estava atrasando o ciclo de lançamentos do projeto.
- Foco no Futuro: A versão 13.0 será otimizada para as tecnologias de kernel e compiladores mais recentes, sem o “peso morto” de manter compatibilidade com scripts de inicialização legados.
Impacto e repercussão externa
A recepção na comunidade foi mista, porém pragmática. No Hacker News, muitos usuários lamentam a perda do valor didático do System V. A simplicidade de ver um sistema Linux subir através de meros scripts de texto era o ponto alto do aprendizado no LFS.
Por outro lado, no Reddit (r/linux), a mudança é vista como um reconhecimento da realidade atual: quase nenhum software moderno de desktop é testado contra o SysVinit pelos desenvolvedores originais (upstream). Manter o suporte era lutar contra a maré. Para os puristas, o conselho é manter uma cópia da versão 12.4, que será a “eterna” referência para quem não abre mão do minimalismo do System V.
Resumo técnico
- Abandono do SysVinit: A partir da versão 13.0, o LFS-Bootscripts não será mais desenvolvido.
- Target Release: 1º de março de 2026.
- Versionamento: A série 12.x encerra o ciclo System V. A série 13.x será 100% systemd.
- Volume de código: O sistema de inicialização passa de dezenas de arquivos para uma base de código de milhões de linhas, refletindo a complexidade do Linux moderno.
Disponibilidade
O guia LFS 12.4 (System V) permanecerá disponível nos arquivos do site oficial, mas sem atualizações de segurança ou de pacotes. O desenvolvimento ativo agora se concentra no LFS 13.0, que já pode ser consultado em sua versão de desenvolvimento para quem deseja se antecipar à transição.
