A monetização no X está passando por uma mudança importante. A plataforma encerrou o modelo de Creator Revenue Sharing, programa que remunerava criadores com base no desempenho de suas publicações, e anunciou o Original Content Rewards, uma nova iniciativa que pretende direcionar os pagamentos para quem realmente produz conteúdo próprio e relevante.
A mudança representa uma tentativa de alterar os incentivos econômicos da plataforma. Em vez de estimular criadores a buscar o maior volume possível de impressões e interações, o X quer privilegiar reportagens, análises, vídeos, fotos, artes, memes e comentários que acrescentem informação ou perspectiva própria. O objetivo declarado é reduzir estratégias de exploração do algoritmo, como engagement bait, republicações e conteúdo reciclado.
O fim do Revenue Sharing e a chegada do Original Content Rewards
O antigo Creator Revenue Sharing será encerrado como programa de novas adesões, enquanto os participantes atuais continuarão recebendo pagamentos durante o período de transição, até 7 de setembro de 2026. A partir de 8 de setembro, entra em vigor o Original Content Rewards.
A diferença central está naquilo que o X pretende remunerar. O antigo sistema evoluiu ao longo do tempo e passou a considerar principalmente impressões verificadas na Home Timeline, além de outros fatores relacionados ao engajamento. A própria documentação do X mostra que o modelo anterior buscava recompensar conteúdo capaz de gerar interações e conversas.
Agora, a empresa afirma que os incentivos estavam desalinhados. A prioridade passa a ser a produção de conteúdo novo e original, em vez da simples maximização de visualizações.

O que passa a ser considerado conteúdo original
O novo programa adota uma interpretação relativamente ampla de originalidade. Entre os formatos que podem ser considerados estão reportagens e análises produzidas pelo próprio criador, vídeos e fotografias feitos pelo usuário, além de gráficos, ilustrações e memes autorais.
Comentários e reações também podem ser elegíveis, desde que tragam valor significativo à publicação original. Isso é importante porque o X não está simplesmente proibindo respostas ou comentários: a questão é diferenciar uma contribuição editorial de uma publicação que apenas repete ou redistribui aquilo que outra pessoa já produziu.
Na prática, isso pode favorecer jornalistas independentes, especialistas, analistas, desenvolvedores, fotógrafos e outros profissionais que utilizam o X como plataforma de distribuição para material próprio.
Para quem busca ganhar dinheiro no X, a mensagem é clara: produzir algo que acrescente informação, contexto ou criatividade tende a ser mais importante do que encontrar uma fórmula para gerar o maior número possível de interações.
O fim da festa para agregadores e caça-cliques
Um dos principais alvos da mudança é o engagement bait, estratégia conhecida no Brasil como caça-cliques ou isca de engajamento.
O problema aparece quando o incentivo financeiro transforma determinadas métricas em objetivo principal. Publicações podem ser estruturadas para provocar respostas, curtidas ou compartilhamentos sem necessariamente oferecer conteúdo relevante. O resultado pode ser uma timeline repleta de chamadas artificiais, republicações e conteúdo criado exclusivamente para capturar atenção.
O novo modelo pretende reduzir esse comportamento. Republicações de conteúdo de terceiros, cópias de posts e vídeos simplesmente reupados deixam de representar uma fonte confiável de receita dentro da nova proposta. O X também afirma que respostas isoladas não devem funcionar como mecanismo de monetização por si só.
Outro ponto relevante envolve publicações que tenham sido desmentidas pelo Community Notes. Esse tipo de conteúdo pode ficar fora da remuneração, reforçando a intenção de aproximar a monetização de critérios de qualidade e confiabilidade.
A mudança também coloca pressão sobre perfis agregadores que construíram audiência principalmente redistribuindo notícias, vídeos ou posts produzidos por outras pessoas. Eles ainda podem continuar existindo no X, mas o modelo econômico passa a ser menos favorável para esse tipo de operação.
Critérios de elegibilidade e como vai funcionar a transição
Para participar do Original Content Rewards, os criadores precisarão cumprir requisitos mais específicos. Entre os critérios anunciados estão uma assinatura ativa do X Premium ou Premium+, pelo menos 500 seguidores verificados e 500 mil impressões provenientes de usuários verificados na Home Timeline durante os últimos 90 dias.
As inscrições devem ser reabertas em setembro, por meio do Creator Studio. O programa também utilizará o conceito de “qualified impressions”, ou impressões qualificadas.
Nesse modelo, não basta uma publicação acumular visualizações indiscriminadamente. As impressões consideradas para a remuneração estão relacionadas a usuários Premium que visualizam conteúdo original no feed principal, com critérios específicos de visibilidade da publicação.
Essa diferença é importante porque muda a estratégia de crescimento. No antigo sistema, aumentar o alcance podia ser uma prioridade direta para elevar o potencial de pagamento. No novo cenário, o criador precisará equilibrar alcance, qualidade, autenticidade e capacidade de produzir material próprio.
O X também mantém regras gerais para monetização. Criadores precisam estar em situação regular na plataforma, cumprir os padrões de monetização, manter requisitos de segurança da conta e atender às condições relacionadas à assinatura e ao recebimento dos pagamentos.
O impacto da monetização no X para a economia dos criadores
A mudança pode criar uma divisão mais clara entre dois grupos de criadores.
De um lado estão aqueles que investem em conteúdo exclusivo, como análises, notícias próprias, opiniões fundamentadas, vídeos, fotografias e trabalhos criativos. Para esse grupo, a alteração pode representar uma oportunidade, já que a plataforma está explicitamente tentando direcionar dinheiro para quem gera valor novo.
Do outro lado estão os perfis que dependiam de agregação, repostagens e estratégias de engajamento artificial. Para eles, a nova política pode reduzir significativamente o potencial de receita.
A transformação também é importante para o próprio X. Programas de monetização não apenas distribuem dinheiro: eles moldam o comportamento dos usuários. Se a recompensa financeira favorece quantidade e alcance, criadores têm um incentivo para produzir mais conteúdo voltado à atenção. Se a remuneração favorece originalidade, a plataforma tenta estimular uma oferta maior de material exclusivo.
Isso não significa que o novo sistema eliminará automaticamente spam ou caça-cliques. A definição de “conteúdo original” pode gerar disputas, especialmente quando uma publicação mistura comentário, curadoria e material produzido por terceiros. Também será necessário observar como o X aplicará essas regras em escala e como os criadores reagirão aos novos critérios.
Ainda assim, a mudança sinaliza uma importante virada na estratégia de monetização no X. Depois de anos ajustando o Revenue Sharing, a plataforma agora tenta estabelecer uma relação mais direta entre dinheiro e valor editorial ou criativo.
Resta saber se isso será suficiente para mudar o comportamento de milhares de contas que aprenderam a explorar as métricas da plataforma.
