O sucesso do AirTag transformou o mercado de rastreadores pessoais. Pequeno, eficiente e extremamente preciso, ele virou referência quando o assunto é encontrar chaves, mochilas ou malas perdidas. Enquanto isso, usuários Android ainda enfrentam uma experiência inconsistente com a rede Find My Device, agora rebatizada como Find Hub em alguns mercados, mas longe de entregar o mesmo nível de localização de precisão.
A grande pergunta é: por que os rastreadores Android UWB ainda são raridade em 2026? A resposta passa por três fatores centrais, tecnologia, fragmentação de hardware e, sim, o chamado “fator Apple”.
Este artigo explica por que o Android ainda não conseguiu criar um verdadeiro “AirTag Killer” e como decisões técnicas e comerciais moldaram esse cenário.
O que é o UWB e por que ele é superior ao Bluetooth?
A sigla UWB significa Ultra Wideband, ou rádio de banda ultralarga. Diferentemente do Bluetooth, que mede proximidade com base na intensidade do sinal, o UWB mede o tempo exato que o sinal leva para ir e voltar entre dois dispositivos.
Isso permite calcular distância com precisão de centímetros.
Na prática, o UWB oferece:
- Localização de precisão em ambientes internos
- Indicação de direção, com setas na tela
- Menor interferência de obstáculos
- Resposta mais rápida na busca final
Já o Bluetooth depende da intensidade do sinal RSSI, que varia conforme paredes, pessoas e até objetos metálicos no ambiente. Por isso, a experiência de encontrar um rastreador Bluetooth puro costuma ser aproximada, você sabe que está “perto”, mas não exatamente onde.
É essa diferença que faz o AirTag parecer mágico quando usado com um iPhone compatível. A seta aponta exatamente para o objeto, com indicação de distância em tempo real.
Sem UWB, os rastreadores Android ficam limitados a um modelo baseado apenas em proximidade aproximada.

O fantasma da fragmentação de hardware
Se o UWB é tão superior, por que ele não está em todos os celulares Android? A resposta é fragmentação. Mesmo em 2026, smartphones de alto valor, na faixa dos US$ 800, ainda chegam ao mercado sem chip UWB. Modelos como Pixel 10 e Galaxy S25, dependendo da região, não incluem o hardware. Isso cria um problema estrutural para qualquer fabricante que queira apostar pesado em rastreadores Android UWB.
Diferentemente da Apple, que controla hardware e software, o Android é um ecossistema distribuído. Cada fabricante decide:
- Incluir ou não o chip UWB
- Ativar ou não a API correspondente
- Padronizar ou não o suporte regional
O resultado é simples, não existe massa crítica suficiente.
Se apenas uma parcela pequena da base instalada possui UWB, lançar um rastreador premium com esse recurso encarece o produto e limita seu público. Fabricantes como Xiaomi e Motorola precisam pensar em escala global, e não apenas nos poucos usuários com dispositivos compatíveis.
Isso cria um ciclo vicioso:
Sem celulares com UWB, não há rastreadores populares com UWB.
Sem rastreadores populares com UWB, não há incentivo para incluir o chip nos celulares.
Enquanto isso, o Bluetooth continua universal.
O “fator Apple” e as redes híbridas
Aqui entra o ponto mais controverso. A Apple não apenas lançou o AirTag, mas construiu uma infraestrutura massiva com a rede Buscar. Milhões de iPhones funcionam como nós passivos, detectando rastreadores próximos e enviando a localização de forma criptografada.
O problema é que a Apple não abre o uso completo do UWB para fabricantes terceiros no mesmo nível de integração profunda que utiliza internamente. Mesmo empresas certificadas na rede Buscar enfrentam limitações.
Isso gera um efeito colateral importante para marcas que atuam nos dois ecossistemas.
Empresas como Pebblebee e Xiaomi precisam decidir:
- Criar um produto exclusivo para Android com UWB
- Ou lançar um modelo compatível com Android e iOS usando apenas Bluetooth
A segunda opção quase sempre vence.
Por quê? Porque um rastreador Bluetooth funciona tanto na rede Find My Device quanto na rede da Apple, com adaptações. Já um modelo focado em UWB para Android teria mercado restrito e incompatibilidade com o iOS.
Na prática, o “fator Apple” força a padronização pelo menor denominador comum, o Bluetooth.
O caso do Xiaomi Tag e o Moto Tag 2
Quando analisamos Xiaomi Tag vs AirTag, o contraste fica evidente. O Xiaomi Tag aposta em preço competitivo, design discreto e integração com a conta Google. Ele funciona bem dentro da rede Find My Device, mas depende exclusivamente de Bluetooth para busca de proximidade.
Já o Moto Tag 2 tenta posicionar a Motorola como alternativa mais sofisticada dentro do ecossistema Android. Em algumas versões, há suporte a UWB, mas restrito a aparelhos compatíveis da própria marca ou a poucos modelos premium.
O que isso revela? A Xiaomi aposta em escala e acessibilidade. A Motorola testa diferenciação com recursos avançados, mas enfrenta o limite da base instalada. Nenhum deles consegue entregar uma experiência universal de localização de precisão comparável ao AirTag, porque o Android não oferece homogeneidade de hardware.
Essa comparação entre Moto Tag 2 e Xiaomi Tag vs AirTag mostra que o problema não é apenas tecnológico, mas estrutural.
A rede Find My Device ainda está amadurecendo
Outro ponto importante é o estágio da própria rede do Google. A rede Find My Device evoluiu muito desde o lançamento inicial. Hoje, ela utiliza bilhões de dispositivos Android como pontos de detecção, com criptografia ponta a ponta e integração ao sistema.
No entanto, há desafios:
- Ativação opcional em alguns aparelhos
- Configurações regionais diferentes
- Dependência de conexão ativa e permissões corretas
Comparada à abordagem da Apple, que mantém a rede Buscar fortemente integrada e padronizada, o Android ainda sofre com a diversidade de implementações.
Para que os rastreadores Android UWB se tornem viáveis em larga escala, seria necessário:
- Tornar o UWB padrão em celulares premium
- Incentivar fabricantes a incluir o chip em modelos intermediários
- Garantir APIs consistentes em todo o ecossistema
Sem isso, o recurso continuará restrito a nichos.
Conclusão: o UWB será padrão ou continuará um luxo?
O cenário atual indica que o UWB no Android ainda é visto como diferencial premium, não como necessidade básica. Enquanto o Bluetooth resolve “bem o suficiente” para a maioria dos usuários, fabricantes evitam encarecer produtos com um chip cujo uso prático depende de poucos aparelhos compatíveis.
O dilema dos rastreadores Android UWB não é apenas técnico. Ele envolve:
- Fragmentação do Android
- Estratégia comercial das marcas
- Restrições de interoperabilidade com o ecossistema Apple
- Falta de padronização global de hardware
Se o Google conseguir transformar o UWB em requisito mínimo para dispositivos premium, a história pode mudar. Caso contrário, a localização de precisão continuará sendo um privilégio concentrado no ecossistema da Apple.
Em 2026, o Android ainda busca seu verdadeiro “AirTag Killer”. E, ironicamente, para alcançá-lo, talvez precise resolver não apenas seus próprios desafios internos, mas também a sombra estratégica da Apple sobre o mercado de rastreadores inteligentes.
