A segurança no npm nunca esteve tão em evidência quanto após o incidente Sha1-Hulud, um ataque que abalou a confiança na cadeia de distribuição de pacotes e obrigou o ecossistema JavaScript a encarar uma verdade incômoda: proteger apenas o código não é suficiente. No final de 2025, o episódio serviu como um catalisador para mudanças profundas nas políticas de autenticação da plataforma, eliminando práticas consideradas frágeis e introduzindo novos mecanismos de proteção.
Entre as principais transformações está a morte dos tokens clássicos e a adoção de alternativas mais seguras, como tokens de sessão e OIDC. No entanto, apesar da evolução técnica, ainda existe um elo vulnerável que nenhuma tecnologia consegue corrigir completamente: o fator humano. Ataques de phishing, engenharia social e erros operacionais continuam sendo responsáveis por grande parte das invasões.
O dado que mais preocupa especialistas em cadeia de suprimentos é que cerca de 98,5% dos malwares encontrados em pacotes não estão no código-fonte visível, mas sim no artefato efetivamente publicado. Isso significa que mesmo projetos com revisão rigorosa podem distribuir software comprometido sem perceber. Em outras palavras, a infraestrutura está mais segura, mas a batalha ainda está longe de ser vencida.
A era dos tokens clássicos chegou ao fim
Por anos, os chamados tokens de longa duração foram o padrão de autenticação para publicação de pacotes. Eles funcionavam como chaves permanentes: uma vez gerados, podiam permanecer válidos por meses ou até anos.
O problema é que qualquer credencial com vida útil extensa se torna um alvo altamente valioso. Bastava um vazamento acidental em um repositório público, um log mal configurado ou um ataque de phishing para que um invasor obtivesse acesso total ao pipeline de publicação.
Essa fragilidade transformou os tokens clássicos em um dos maiores riscos para a segurança no npm, especialmente em projetos mantidos por equipes pequenas ou desenvolvedores independentes.

O que mudou com os tokens de sessão e OIDC?
A substituição trouxe uma abordagem mais alinhada ao conceito de credenciais efêmeras.
Os tokens de sessão agora possuem validade extremamente curta, geralmente cerca de duas horas. Isso reduz drasticamente a janela de exploração: mesmo que um atacante capture o token, o tempo disponível para uso indevido é mínimo.
Já o OIDC representa uma mudança ainda mais estratégica. Em vez de armazenar segredos permanentes em variáveis de ambiente, o sistema permite autenticação dinâmica entre provedores de identidade e plataformas de CI/CD.
Na prática, isso significa que pipelines automatizados podem solicitar credenciais temporárias apenas no momento da publicação. Sem segredos persistentes, diminui-se o risco de vazamentos silenciosos.
Para organizações maduras em DevSecOps, essa integração marca um salto relevante na segurança no npm e ajuda a reduzir uma importante vulnerabilidade Node.js associada à gestão de credenciais.
Por que a MFA ainda não é a solução definitiva?
A autenticação multifator, ou MFA, costuma ser tratada como uma barreira quase intransponível. Mas a realidade recente mostra que ela está longe de ser infalível.
Um caso emblemático envolveu mantenedores experientes do ecossistema ChalkJS, que foram enganados por um ataque sofisticado de phishing. A mensagem simulava comunicações oficiais e direcionava as vítimas para uma página falsa de autenticação.
Mesmo com MFA ativada, os códigos foram capturados em tempo real e reutilizados pelo invasor. Esse tipo de ataque, conhecido como adversary-in-the-middle, demonstra que proteção adicional não elimina o risco quando o usuário é convencido a colaborar sem perceber.
Outro ponto menos discutido é a existência de tokens personalizados capazes de contornar a exigência de MFA em determinados fluxos automatizados. Quando mal configurados, eles criam um bypass perigoso que enfraquece toda a estratégia de defesa.
Esse cenário revela um paradoxo importante: a tecnologia evoluiu, mas a superfície de ataque continua ampla. A segurança no npm depende tanto de boas ferramentas quanto de disciplina operacional.
O modelo de segurança do queijo suíço e recomendações
Especialistas costumam comparar a segurança moderna ao modelo do “queijo suíço”. Cada camada de proteção possui falhas, os famosos buracos , mas quando várias barreiras são combinadas, a probabilidade de um ataque atravessar todas elas diminui drasticamente.
Aplicado à cadeia de suprimentos npm, isso significa abandonar a ideia de proteção única e investir em defesa em profundidade.
Algumas recomendações práticas incluem:
- Tornar o OIDC obrigatório sempre que possível, especialmente em pipelines de publicação.
- Evitar qualquer configuração que permita bypass de MFA.
- Revisar regularmente permissões de tokens e identidades.
- Monitorar metadados de pacotes para detectar alterações suspeitas.
- Implementar políticas de menor privilégio em sistemas de CI/CD.
- Treinar equipes para reconhecer tentativas modernas de phishing.
Além disso, vale lembrar que ataques à cadeia de suprimentos npm raramente começam com exploração técnica avançada. Muitas vezes, eles se originam de credenciais expostas ou decisões aparentemente pequenas.
Fortalecer processos internos pode ser tão importante quanto adotar novas tecnologias de autenticação OIDC npm.
Conclusão e impacto
As mudanças recentes mostram que o npm está avançando na direção correta. A eliminação de tokens permanentes e a adoção de autenticação baseada em identidade representam melhorias concretas para a segurança no npm.
Ainda assim, nenhuma plataforma consegue garantir proteção absoluta quando práticas inseguras persistem do lado humano. A responsabilidade final continua sendo compartilhada entre mantenedores, equipes de segurança e organizações que dependem desses pacotes diariamente.
Se existe uma lição clara após o incidente Sha1-Hulud, é que confiança deve ser constantemente verificada, nunca presumida.
Agora é o momento ideal para revisar suas configurações de publicação, migrar para OIDC, eliminar credenciais antigas e ativar MFA em todas as contas. Pequenas ações hoje podem impedir um comprometimento de larga escala amanhã.
A cadeia de suprimentos moderna exige vigilância contínua. E, no ecossistema Node.js, segurança deixou de ser diferencial, tornou-se requisito básico de sobrevivência.
