Spam de músicas geradas por IA invade o YouTube Music e frustra usuários premium

Quando a curadoria falha, a inteligência artificial transforma o streaming em ruído.

Escrito por
Jardeson Márcio
Jardeson Márcio é Jornalista e Mestre em Tecnologia Agroalimentar pela Universidade Federal da Paraíba. Com 8 anos de experiência escrevendo no SempreUpdate, Jardeson é um especialista...

Assinar um serviço de streaming cria uma expectativa clara, acesso a músicas relevantes, boas recomendações e uma curadoria que respeite o gosto do usuário. No entanto, para muitos assinantes do YouTube Music, essa promessa vem sendo quebrada. Nos últimos meses, crescem os relatos de playlists e rádios tomadas por faixas genéricas criadas por inteligência artificial, um fenômeno que escancara falhas graves nos sistemas de recomendação. O avanço do uso de IA dentro do YouTube Music deixou de ser uma inovação silenciosa e passou a ser percebido como um problema real para quem paga pelo serviço.

O problema das recomendações artificiais no YouTube Music

O principal ponto de insatisfação está na forma como músicas criadas por IA generativa passaram a dominar recomendações automáticas. São faixas com nomes vagos, artistas inexistentes ou recém-criados, capas genéricas e estruturas sonoras repetitivas. Muitas vezes, basta iniciar uma rádio baseada em um artista conhecido para que, poucas músicas depois, surjam essas produções sintéticas que não têm relação direta com o estilo escolhido.

O problema não é a existência da tecnologia em si. O uso de IA no YouTube Music poderia servir para auxiliar artistas, sugerir variações criativas ou até melhorar a descoberta musical. O que causa frustração é a ausência de filtros eficientes que separem música autoral legítima de conteúdo produzido em massa apenas para explorar o algoritmo. Para o usuário premium, isso se traduz em uma sensação clara de perda de valor.

Outro fator preocupante é a escala. Diferente de artistas humanos, conteúdos gerados por inteligência artificial podem ser lançados em grande volume, com centenas de faixas quase idênticas. Isso cria um efeito de inundação, no qual o algoritmo passa a privilegiar quantidade e padrões estatísticos, deixando a qualidade artística em segundo plano.

Imagem com logomarca do Youtube Music

Por que o botão de “não gostei” parece inútil?

Uma das maiores queixas recorrentes entre os usuários é a ineficácia das ferramentas de feedback. O botão de “não gostei” deveria ser um sinal claro para os algoritmos entenderem as preferências individuais. No entanto, na prática, muitos assinantes relatam que continuam recebendo músicas semelhantes mesmo após rejeitá-las repetidamente.

Discussões em comunidades como o Reddit mostram que o problema não é isolado. Usuários afirmam que marcar uma faixa gerada por IA como irrelevante não impede que o mesmo “artista” ou variações quase idênticas voltem a aparecer dias depois. Isso indica que o sistema do YouTube Music prioriza métricas globais de desempenho em vez do feedback direto do assinante.

Esse comportamento enfraquece a confiança na plataforma. Quando o usuário percebe que suas ações não influenciam as recomendações, o sentimento de controle desaparece. Para um serviço pago, essa desconexão entre preferências humanas e decisões automatizadas é um sinal claro de falha de design algorítmico.

Como outras plataformas estão lidando com a música gerada por IA

Embora a presença de IA generativa seja um desafio para todo o setor de streaming, a postura das plataformas varia bastante. O Spotify, por exemplo, já reconheceu publicamente o problema de músicas artificiais usadas como spam. A empresa iniciou remoções de catálogos inteiros quando detecta uso abusivo da tecnologia para manipular recomendações e monetização.

A Deezer adotou uma abordagem ainda mais direta. A plataforma desenvolveu sistemas internos capazes de identificar músicas criadas integralmente por inteligência artificial e anunciou que esse tipo de conteúdo não será promovido em recomendações editoriais. A estratégia busca proteger tanto os ouvintes quanto artistas reais que competem por espaço.

Já o Apple Music mantém uma dependência maior de curadoria humana. Playlists editoriais e seleções feitas por especialistas reduzem significativamente a exposição a conteúdos artificiais em massa. Embora a IA também esteja presente, ela atua como ferramenta de apoio, não como motor principal de descoberta.

Nesse comparativo, o YouTube Music se destaca negativamente pela falta de comunicação clara e pela lentidão em ajustar seus sistemas. A percepção dos usuários é de que o problema está sendo ignorado, mesmo com o aumento das reclamações.

O impacto da IA na música e a teoria da internet morta

O avanço descontrolado de conteúdo sintético no streaming reforça uma discussão mais ampla, o risco de uma internet dominada por material produzido por máquinas para outras máquinas. A chamada teoria da internet morta sugere que grande parte do conteúdo digital já não é feita para humanos, mas para alimentar algoritmos, anúncios e métricas de engajamento.

No contexto do YouTube Music, isso se manifesta em playlists cada vez mais genéricas, músicas sem identidade cultural e artistas sem qualquer presença fora da plataforma. A música deixa de ser expressão artística e passa a ser ruído funcional, criado para preencher espaço e gerar streams.

Para o usuário, especialmente o assinante premium, o impacto é direto. A experiência perde personalidade, a descoberta musical se torna previsível e a sensação de estar explorando algo novo desaparece. Se nada mudar, o streaming corre o risco de se afastar do seu propósito original, conectar pessoas à música de forma significativa.

É importante reforçar que a IA generativa não é inimiga da criação musical. Quando usada de forma ética e transparente, pode ampliar possibilidades criativas. O problema surge quando plataformas falham em impor limites claros e permitem que o volume sintético comprometa a experiência humana.

Conclusão: ainda vale a pena insistir no YouTube Music?

A crescente presença de músicas artificiais no YouTube Music expõe uma fragilidade preocupante na curadoria e no uso da inteligência artificial. Quando o feedback do usuário é ignorado e os algoritmos priorizam escala em vez de relevância, a proposta de valor do serviço pago é colocada em xeque.

Comparado a concorrentes como Spotify, Deezer e Apple Music, o YouTube Music precisa urgentemente rever sua estratégia. Transparência, filtros mais rigorosos e respeito às preferências individuais são passos essenciais para recuperar a confiança dos assinantes.

Para o usuário, fica a reflexão, continuar insistindo na plataforma ou buscar alternativas que tratem a música como cultura, não apenas como dado. Você já percebeu esse excesso de músicas artificiais nas suas recomendações? Compartilhe sua experiência e participe desse debate cada vez mais necessário.

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