Imagine instalar um aplicativo justamente para proteger sua privacidade e descobrir que ele pode estar fazendo o oposto. Essa é a principal conclusão de um novo estudo acadêmico que analisou 281 aplicativos de VPN gratuitos para Android e encontrou falhas graves de segurança, mecanismos de rastreamento e práticas que colocam em risco milhões de usuários.
A pesquisa utilizou o framework MVPNalyzer, desenvolvido para avaliar automaticamente aplicativos de VPN no Android. O levantamento cobre serviços que somam aproximadamente 2,4 bilhões de downloads, revelando que muitas dessas ferramentas apresentam vulnerabilidades capazes de expor informações sensíveis, comprometer a criptografia e até permitir a interceptação do tráfego de internet.
O resultado serve de alerta para quem procura uma VPN gratuita para Android acreditando que qualquer aplicativo disponível na Play Store oferecerá proteção adequada. Quando uma VPN é ativada, todo o tráfego da conexão passa pelos servidores desse serviço. Em outras palavras, o usuário transfere boa parte da confiança sobre sua navegação para a empresa responsável pelo aplicativo. Se essa infraestrutura não for segura, a promessa de privacidade simplesmente deixa de existir.
Os perigos ocultos das VPNs gratuitas para Android
A descoberta mais preocupante do estudo envolve a forma como alguns aplicativos estabelecem suas conexões.
Os pesquisadores identificaram cinco aplicativos que baixavam seus arquivos de configuração utilizando conexões sem HTTPS.
Na prática, isso significa que essas configurações viajavam pela internet em texto puro, podendo ser interceptadas ou alteradas durante o percurso.
Em uma rede Wi-Fi pública, por exemplo, um criminoso poderia modificar esses arquivos antes que a VPN fosse ativada, redirecionando toda a conexão da vítima para servidores controlados pelo atacante.
Esse tipo de ataque, conhecido como Man-in-the-Middle (MitM), compromete completamente o objetivo de uma VPN, que deveria justamente impedir a espionagem do tráfego.

Imagem: TheHackerNews
Vazamentos de DNS continuam sendo um problema
Outro ponto destacado pelo MVPNalyzer foi o elevado número de aplicativos que sofrem com vazamentos de DNS.
Ao todo, 29 VPNs analisadas permitiam que consultas DNS escapassem do túnel criptografado.
Embora o conteúdo dos sites continue protegido, essas consultas revelam quais domínios estão sendo acessados pelo usuário.
Isso significa que provedores de internet, administradores de rede ou até invasores conseguem identificar parte do histórico de navegação mesmo quando a VPN está ativa.
Para quem utiliza uma VPN justamente para preservar a privacidade, esse comportamento anula uma das principais vantagens desse tipo de serviço.
Nem toda VPN realmente criptografa sua conexão
Outro mito desmontado pela pesquisa é a ideia de que qualquer VPN utiliza criptografia moderna.
Os pesquisadores encontraram aplicativos que:
- Operavam túneis praticamente sem criptografia efetiva;
- Utilizavam algoritmos antigos como Blowfish;
- Continuavam oferecendo suporte ao já ultrapassado Triple DES (3DES).
Embora esses algoritmos tenham sido importantes durante muitos anos, eles não representam mais o padrão recomendado para proteger comunicações modernas.
Hoje, espera-se que serviços sérios adotem protocolos como WireGuard, OpenVPN ou IKEv2/IPsec, combinados com algoritmos robustos como AES-256 ou ChaCha20-Poly1305.
Quando isso não acontece, o usuário acredita estar protegido, mas pode estar utilizando uma camada de segurança significativamente inferior ao esperado.
Mais de 80% das VPNs gratuitas analisadas rastreiam seus usuários
Um dos resultados mais surpreendentes da pesquisa envolve a coleta de dados.
Segundo os pesquisadores, mais de 80% dos aplicativos analisados incorporam bibliotecas capazes de coletar:
- ID de publicidade do Android;
- Identificadores únicos do aparelho;
- Informações do dispositivo;
- Dados da rede utilizada;
- Em alguns casos, até coordenadas de GPS.
Essas informações permitem construir uma impressão digital do dispositivo (device fingerprint).
Mesmo ocultando o endereço IP, o aplicativo continua sendo capaz de identificar o usuário por meio da combinação desses dados.
Na prática, alguns serviços acabam transformando informações pessoais em fonte de receita por meio de publicidade direcionada e análise comportamental.
Os selos da Play Store não garantem segurança
Outro ponto levantado pelo estudo diz respeito à percepção de confiança criada pela própria Google Play Store.
Milhões de downloads, avaliações positivas e selos automáticos podem transmitir uma falsa sensação de segurança.
Entretanto, esses indicadores não representam uma auditoria completa sobre a implementação da VPN, seus protocolos criptográficos ou sua política de coleta de dados.
Um aplicativo popular pode continuar apresentando vulnerabilidades graves mesmo estando disponível na loja oficial do Android.
Por isso, confiar apenas na reputação da Play Store não é suficiente quando o assunto é privacidade.
Um problema antigo que continua se repetindo
As conclusões do MVPNalyzer reforçam alertas publicados em pesquisas anteriores.
Estudos divulgados em 2025 pelo Citizen Lab e pela Zimperium já apontavam problemas semelhantes em aplicativos de VPN para Android, incluindo excesso de permissões, coleta abusiva de dados e uso de componentes desatualizados.
O novo levantamento mostra que parte dessas falhas continua presente.
Bibliotecas antigas, protocolos obsoletos e até referências a vulnerabilidades históricas, como Heartbleed, demonstram que muitos desenvolvedores ainda negligenciam práticas básicas de segurança.
Isso evidencia um problema estrutural: nem todo aplicativo voltado à proteção digital é desenvolvido seguindo os padrões esperados pela indústria.
Como escolher uma VPN realmente segura
Embora o estudo revele um cenário preocupante, isso não significa que toda VPN gratuita seja insegura.
Existem serviços sérios que adotam boas práticas de desenvolvimento, passam por auditorias independentes e mantêm políticas transparentes sobre tratamento de dados.
Antes de instalar uma VPN, vale observar alguns critérios importantes:
- Prefira empresas que publiquem auditorias independentes;
- Verifique quais protocolos de criptografia são utilizados;
- Leia a política de privacidade para entender quais dados são coletados;
- Evite aplicativos sustentados por publicidade excessiva;
- Pesquise o histórico da empresa responsável pelo serviço;
- Desconfie de promessas irreais, como velocidade ilimitada e privacidade absoluta sem explicar o modelo de negócios.
No universo da segurança digital existe uma regra que continua atual: quando um serviço gratuito não explica claramente como se financia, vale a pena investigar se os seus dados fazem parte desse modelo de negócio.
Conclusão
O estudo conduzido com o framework MVPNalyzer deixa um recado importante: nem toda VPN melhora a privacidade do usuário.
Em alguns casos, o aplicativo pode introduzir novas vulnerabilidades, permitir rastreamento, expor informações sensíveis e comprometer justamente aquilo que promete proteger.
Antes de instalar qualquer VPN no Android, pesquise quem desenvolve o aplicativo, procure auditorias independentes e verifique a reputação técnica do serviço. Em segurança da informação, confiança deve ser conquistada com transparência, não apenas com promessas de marketing.
