Vulnerabilidade em chips Unisoc expõe o kernel do Android

Escrito por
Jardeson Márcio
Jardeson Márcio é Jornalista e Mestre em Tecnologia Agroalimentar pela Universidade Federal da Paraíba. Com 8 anos de experiência escrevendo no SempreUpdate, Jardeson é um especialista...

Falha em modems Unisoc expõe o kernel do Android por chamadas VoLTE.

Uma vulnerabilidade em chips Unisoc pode permitir que um invasor comprometa completamente determinados smartphones Android a partir de uma chamada de vídeo VoLTE, sem depender de um aplicativo malicioso instalado no aparelho. A descoberta, associada à pesquisa da SSD Secure Disclosure, revela uma cadeia de exploração em duas etapas que começa no firmware do modem e pode terminar com execução de código no kernel Linux do Android.

O problema é especialmente preocupante porque o ataque explora uma superfície que normalmente fica distante da atenção do usuário: o modem celular. Em vez de convencer a vítima a abrir um arquivo ou instalar um APK, o atacante utiliza mensagens de sinalização SIP/SDP manipuladas durante o estabelecimento de uma comunicação VoLTE. Pesquisas públicas sobre a primeira etapa descrevem corrupção de memória no firmware de modems Unisoc e execução remota de código.

A situação ganha importância pelo uso dos chips Unisoc em smartphones de baixo custo. O T606, por exemplo, equipa aparelhos como o Motorola Moto E13, enquanto a própria Unisoc confirma que o T7250 oferece suporte a LTE e VoLTE/ViLTE.

Como funciona a cadeia de ataque no modem Unisoc

O ataque descrito pelos pesquisadores combina duas etapas distintas. Primeiro, o invasor precisa obter execução de código no processador responsável pelo modem. Depois, utiliza a comunicação entre modem e processador principal para escapar das limitações existentes e alcançar o ambiente privilegiado do Android.

Essa combinação é muito mais perigosa do que uma vulnerabilidade isolada no firmware de rádio. Um comprometimento do modem já representa um problema sério, mas a segunda etapa transforma a falha em um possível caminho para o controle do sistema operacional inteiro.

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Do pacote SIP à execução remota no modem

A primeira etapa explora o protocolo utilizado pela infraestrutura IMS (IP Multimedia Subsystem) para serviços como VoLTE e chamadas de vídeo.

Durante a sinalização da chamada, o protocolo SIP transporta informações relacionadas à sessão, incluindo dados SDP (Session Description Protocol). O problema identificado no firmware Unisoc está associado ao processamento inadequado de determinados atributos SDP.

Segundo a pesquisa divulgada sobre o Unisoc T612, uma sequência especialmente construída de atributos acap pode provocar uma condição de corrupção de memória, explorando o comportamento do decodificador _SDPDEC_AcapDecoder. O cenário pode resultar em estouro de pilha e manipulação de ponteiros de função.

A exploração não depende simplesmente de uma chamada telefônica convencional. Os pesquisadores demonstraram a necessidade de um ambiente celular controlado para entregar as mensagens manipuladas, utilizando uma infraestrutura baseada em Open5GS, Kamailio e equipamento de rádio definido por software.

Isso é importante para dimensionar corretamente o risco. Não significa que qualquer pessoa conectada à internet possa simplesmente ligar para um telefone e obter acesso ao kernel. O ataque exige condições específicas na rede celular e uma capacidade de injetar ou controlar a sinalização necessária.

Ainda assim, o fato de a exploração ocorrer através de uma interface de comunicação celular torna o cenário particularmente relevante. O usuário não precisa instalar um aplicativo, conceder uma permissão ou executar um arquivo.

Da falha no modem ao kernel do Android

A segunda etapa é ainda mais preocupante. Depois de assumir o controle do ambiente do modem, a cadeia explora uma deficiência na separação entre o processador de banda base e o SoC principal.

O ponto central está relacionado à CWE-1189, categoria que trata de situações em que componentes com diferentes níveis de privilégio compartilham recursos físicos sem isolamento adequado.

Em uma arquitetura ideal, um comprometimento do modem deveria permanecer restrito ao próprio modem. Mesmo que o firmware de comunicação fosse comprometido, mecanismos de proteção de hardware deveriam impedir que o código malicioso manipulasse diretamente regiões críticas pertencentes ao processador que executa o Android.

A vulnerabilidade descrita quebra essa expectativa.

A pesquisa aponta para um cenário em que o modem consegue acessar um espaço de memória física de 32 bits sem barreiras de hardware suficientemente rígidas. A cadeia também envolve a manipulação da Memory Protection Unit (MPU) da arquitetura ARM, permitindo alterar as condições de acesso à memória.

Na prática, isso transforma uma falha originalmente confinada ao subsistema celular em uma possível ponte para o sistema operacional principal.

É justamente esse aspecto que torna a vulnerabilidade em chips Unisoc tão relevante. O problema não está apenas no parser de mensagens VoLTE, mas na forma como diferentes partes do SoC confiam umas nas outras.

Quando a proteção entre os domínios é insuficiente, controlar o modem pode deixar de significar apenas controlar chamadas e dados móveis. Pode significar alcançar o kernel do Android, executado no nível mais privilegiado do sistema.

Quais dispositivos estão afetados pela vulnerabilidade em chips Unisoc?

Os testes divulgados associam a cadeia de exploração a diferentes plataformas Unisoc, incluindo os T606, T612 e T7250. Há também referências ao T616 na primeira família de problemas do modem.

Entre os aparelhos identificados estão:

DispositivoChipset Unisoc
Motorola Moto E13T606
Realme C33T612
Xiaomi Redmi A5T7250

O Motorola Moto E13 utiliza oficialmente o Unisoc T606 e Android 13 Go em sua configuração divulgada pela fabricante. O aparelho também oferece conectividade 4G e suporte a VoLTE.

Já o Realme C33 aparece associado ao T612 em documentos técnicos do aparelho, enquanto a investigação sobre a primeira vulnerabilidade de execução remota no modem reproduziu o ataque nesse modelo.

No caso do T7250, a própria Unisoc confirma oficialmente o suporte a VoLTE e ViLTE, além de LTE Cat. 7/13. Isso demonstra que a tecnologia necessária para o cenário de ataque está integrada à plataforma.

É importante, porém, não interpretar essa lista como definitiva. A existência de um chipset vulnerável não significa automaticamente que todos os smartphones que utilizam esse componente tenham exatamente a mesma configuração de firmware ou estejam expostos da mesma maneira. Versões do modem, drivers, implementação da fabricante e atualizações de segurança podem alterar o cenário.

Ausência de patch aumenta a preocupação

Outro ponto crítico é a falta, até o momento, de uma correção amplamente disponibilizada para a cadeia descrita.

Relatos sobre a pesquisa indicam que a SSD Secure Disclosure tentou entrar em contato com a Unisoc, mas não recebeu uma resposta relacionada à disponibilização de um patch.

Também é necessário separar essa descoberta de vulnerabilidades Unisoc antigas que já receberam identificadores CVE. Existem registros públicos anteriores envolvendo chips como T606 e T612, mas eles correspondem a problemas diferentes e não devem ser confundidos automaticamente com esta nova cadeia.

Até que haja uma identificação oficial e uma atualização específica, usuários e administradores devem tratar a situação como um risco de firmware sem correção confirmada.

O desafio da segurança em firmwares de modem

A principal lição dessa descoberta vai além dos modelos específicos. Ela mostra por que a segurança de firmwares de modem precisa receber a mesma atenção dedicada ao Android, ao kernel e aos aplicativos.

O modem está constantemente exposto a uma infraestrutura externa. Ele processa sinais e protocolos provenientes da rede celular antes mesmo que muitas camadas convencionais do sistema operacional tenham qualquer participação.

Por isso, uma vulnerabilidade no modem pode representar uma superfície de ataque extremamente poderosa.

O problema também lembra pesquisas anteriores envolvendo sistemas embarcados e plataformas automotivas, nas quais componentes conectados por barramentos internos compartilhados podem transformar uma falha aparentemente isolada em um comprometimento de outros domínios do sistema.

A arquitetura segura precisa partir do princípio de que qualquer componente pode ser comprometido. Isso significa aplicar isolamento de memória, validação rigorosa de entradas, privilégios mínimos e mecanismos de contenção capazes de impedir que uma falha no modem se transforme em controle do kernel.

Para o usuário comum, a recomendação mais importante é acompanhar cuidadosamente as atualizações de segurança e firmware liberadas pela fabricante do smartphone. Caso uma atualização específica seja disponibilizada para o modem ou para o sistema, ela deve ser instalada assim que possível.

Enquanto não houver uma correção confirmada, usuários de aparelhos potencialmente afetados também devem acompanhar comunicados oficiais de suas fabricantes e evitar assumir que uma atualização comum do Android necessariamente corrige o firmware do modem.

A vulnerabilidade em chips Unisoc é um lembrete de que a segurança de um smartphone não termina no Android. Uma falha silenciosa em uma camada normalmente invisível ao usuário pode abrir caminho para componentes muito mais privilegiados.

Por isso, fabricantes precisam tratar atualizações de firmware de modem como parte essencial do ciclo de segurança. E os usuários devem ficar atentos às próximas correções, especialmente aqueles que possuem aparelhos equipados com T606, T612, T616 ou T7250.

Se você conhece alguém que utiliza um smartphone Unisoc potencialmente afetado, compartilhe este alerta. Quanto mais rápido fabricantes, operadoras e usuários tomarem conhecimento do problema, maior será a pressão por uma resposta de segurança adequada.

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Jardeson Márcio é Jornalista e Mestre em Tecnologia Agroalimentar pela Universidade Federal da Paraíba. Com 8 anos de experiência escrevendo no SempreUpdate, Jardeson é um especialista em Android, Apple, Cibersegurança e diversos outros temas do universo tecnológico. Seu foco é trazer análises aprofundadas, notícias e guias práticos sobre segurança digital, mobilidade, sistemas operacionais e as últimas inovações que moldam o cenário da tecnologia.