Adoção de criptomoedas no Brasil: liderança regional e relevância global

Com stablecoins em mais de 90% das transações, o Brasil ganha tração global em adoção, enquanto Drex e Pix redesenham o cenário financeiro.

Escrito por
Emanuel Negromonte
Emanuel Negromonte é Jornalista, Mestre em Tecnologia da Informação e atualmente cursa a segunda graduação em Engenharia de Software. Com 14 anos de experiência escrevendo sobre...

O Brasil lidera no volume de criptoativos transacionados. Pelo menos na América Latina é rei. E muito se deve às stablecoins que representam mais de 90% das transações. Imagine, aquela prima que se mudou para Lisboa e pediu no grupo de família uma pequena ajuda para conseguir comprar um bilhete de avião para visitar a família no carnaval. 

Se quiser contribuir, fazê-lo através do envio de stablecoins, permitiria que ela recebesse o valor em segundos e que você não pagasse taxas, ou pelo menos, que fossem muito mais baixas se comparadas com o banco tradicional. Isto, é só um exemplo dos milhares que existem e fazem com que tantos brasileiros adotem, cada vez mais, as stablecoins. Porém, neste artigo vamos olhar para um cenário mais macro.

Posição Global e Volume de Adoção

O Brasil movimentou US$ 318,8 bilhões em criptoativos entre julho de 2024 e junho de 2025, um aumento de aproximadamente 109,9% em relação ao período anterior. Esse resultado coloca o país como o maior mercado de criptomoedas da América Latina e entre os líderes globais em termos de volume de transações. A adoção é impulsionada por moedas digitais como o Bitcoin e o Ethereum, cuja cotação ethereum dólar tem mostrado volatilidade que influencia diretamente o comportamento dos investidores. 

Atualmente, o Brasil ocupa a 5ª posição no ranking mundial de adoção de criptomoedas, ficando atrás apenas de países como Índia, Estados Unidos, Paquistão e Filipinas, e à frente de muitas economias desenvolvidas. A dimensão desse movimento é especialmente relevante se considerado em contexto: o volume movimentado em cripto no Brasil supera o total transacionado por grandes setores e empresas domésticas em determinados períodos, mostrando que criptoativos já desempenham um papel significativo nas finanças brasileiras.

Principais Criptomoedas e o Papel das Stablecoins

Um dos fatores mais marcantes do mercado brasileiro é o domínio das stablecoins – criptomoedas cujo valor está atrelado a moedas fiduciárias, principalmente ao dólar americano.

Mais de 90% de todas as transações em cripto no Brasil envolvem stablecoins como Tether (USDT) e Circle USD Coin (USDC). Esse padrão sugere que o uso de stablecoins no país vai além da simples especulação: elas são utilizadas para pagamentos, remessas internacionais, preservação de valor em contextos de volatilidade cambial e transações cotidianas.

Embora o Bitcoin (BTC) e o Ethereum (ETH) permaneçam como criptomoedas amplamente reconhecidas e negociadas, o volume de transações associado a essas moedas é relativamente pequeno se comparado ao fluxo observado de stablecoins no Brasil.

Impacto Econômico e Social

O impacto das criptomoedas na economia brasileira é substancial e multifacetado:

Inclusão Financeira

Em regiões onde o acesso a serviços bancários tradicionais é limitado, principalmente no Nordeste e em áreas rurais, as criptomoedas e, especialmente, as stablecoins têm servido como alternativa para transferências de valor e pagamentos. Essa dinâmica ajuda pessoas a participar mais plenamente da economia digital, muitas vezes com custos mais baixos que os sistemas bancários tradicionais.

Integração com Serviços Financeiros

Empresas fintech e instituições financeiras estão integrando ativamente criptomoedas em seus serviços. Além das exchanges de cripto tradicionais, bancos digitais e plataformas de pagamento começaram a oferecer soluções que facilitam o uso de cripto em pagamentos, investimentos e transferências internacionais, o que impulsiona ainda mais a adoção entre o público em geral.

Comparação com Outros Setores

O volume movimentado em cripto no Brasil, cerca de R$ 1,7 trilhão (US$ 318,8 bilhões) no último ano, é comparável e, em certos casos, superior ao volume de grandes setores económicos. Esses números ilustram como os criptoativos já se tornaram parte integrante da economia brasileira.

Avanços em Regulamentação e Inovação

O cenário regulatório no Brasil também tem evoluído rapidamente:

Marcos Regulatórios

O país tem avançado em direção a uma estrutura legal mais definida para criptomoedas. Após a aprovação de uma lei enquadrando ativos digitais e virtuais ainda em gestação, autoridades como a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e o Banco Central do Brasil (BCB) vêm atualizando normas específicas para atividades com criptoativos.

Drex e Iniciativas de CBDC

O Drex, projeto de moeda digital do Banco Central, está em fase piloto e promete integração com o sistema de pagamentos instantâneos Pix, criando potencial para transações rápidas e eficientes. Embora algumas especificações estejam sendo ajustadas, a iniciativa representa um passo importante na convergência entre sistemas financeiros tradicionais e tecnologia blockchain.

Eventos e Ecossistema de Desenvolvimento

O Brasil tem sediado eventos importantes como ETH Latam e Ethereum Brasil, que reúnem milhares de desenvolvedores, investidores e entusiastas da tecnologia blockchain, contribuindo para que o país seja um polo de inovação e crescimento no setor.

Perspectivas e Desafios até 2030

Especialistas estimam que até 2030, o número de investidores em criptomoedas no Brasil pode chegar a cerca de 120 milhões, quase metade da população total. Este crescimento potencial é sustentado por fatores como maior educação financeira, popularidade das stablecoins e integração de criptoativos com serviços financeiros tradicionais.

No entanto, o caminho não está isento de desafios:

  • Regulamentação ainda em desenvolvimento: apesar dos avanços, lacunas legais e incertezas regulatórias persistem, gerando hesitação em alguns investidores institucionais.
  • Segurança e educação: ainda existem preocupações com fraudes, golpes e falta de compreensão profunda sobre o funcionamento das criptos por parte de muitos usuários.
  • Volatilidade do mercado: a natureza intrinsecamente volátil de muitos criptoativos, embora menos nas stablecoins, continua sendo um fator de risco para investidores.

O Brasil consolidou-se como líder regional em criptoativos e um dos países mais relevantes globalmente em adoção de criptomoedas. Com mais de US$ 318 bilhões em transações anuais, um mercado dominado por stablecoins, e uma posição entre os cinco principais países do mundo em adoção, o país demonstra que a criptoeconomia já está profundamente integrada no seu tecido financeiro.

Enquanto enfrenta desafios regulatórios e educacionais, o crescimento contínuo, aliado a uma comunidade ativa e ecossistema inovador, indica que o Brasil continuará desempenhando um papel importante no futuro das finanças digitais.

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