A Apple está pressionando a Justiça dos Estados Unidos para acelerar a coleta de provas contra a OpenAI em um processo que envolve alegações de apropriação de informações confidenciais relacionadas ao desenvolvimento de hardware de inteligência artificial. A fabricante do iPhone quer antecipar depoimentos, documentos e principalmente uma perícia forense em dispositivos, contas e sistemas que possam esclarecer se dados protegidos foram levados por ex-funcionários para a empresa de Sam Altman.
O pedido ganhou importância porque a OpenAI está montando uma divisão dedicada a dispositivos de inteligência artificial, incluindo profissionais que anteriormente trabalharam na Apple. Para a fabricante, o tempo é um fator crítico: quanto mais avançar o desenvolvimento desses produtos, mais difícil poderá ser identificar se alguma informação confidencial foi incorporada aos projetos.
A disputa coloca frente a frente duas empresas que já foram parceiras na integração do ChatGPT ao ecossistema da Apple, mas que agora podem estar competindo pelo controle da próxima geração de dispositivos.
Apple acelera processo contra OpenAI e quer perícia forense
A Apple apresentou ao tribunal um pedido de produção acelerada de provas junto com sua solicitação de liminar contra a OpenAI. A empresa quer obter documentos relacionados ao suposto acesso a informações proprietárias e realizar depoimentos de pessoas consideradas importantes para a investigação. Entre os nomes citados estão Chang Liu, Tang Yew Tan e funcionários da OpenAI que anteriormente trabalharam na Apple.
A fabricante também quer autorização para que seus advogados e especialistas externos façam uma análise forense de dispositivos, unidades de armazenamento, contas e locais de rede que possam conter informações originadas na Apple.
Esse ponto é particularmente importante. Uma perícia forense pode procurar não apenas arquivos atualmente visíveis, mas também metadados, registros de acesso, arquivos excluídos e rastros de transferência, permitindo reconstruir o que aconteceu com determinado documento.
A Apple afirma que precisa dessas provas para entender a dimensão do suposto uso indevido das informações e, caso necessário, ajustar as medidas cautelares solicitadas ao tribunal.
A empresa também ampliou o alcance de sua investigação. Segundo documentos apresentados no caso, 11 ex-funcionários adicionais passaram a ser considerados pessoas potencialmente relevantes para a apuração, além dos envolvidos originalmente identificados.

O que a Apple acusa os ex-funcionários de terem levado
O processo não questiona simplesmente a contratação de profissionais da Apple pela OpenAI. O argumento central é que alguns funcionários teriam levado ou acessado informações confidenciais sobre hardware, engenharia e produtos ainda não lançados.
Um dos principais casos envolve Chang Liu, ex-engenheiro de sistemas elétricos da Apple. A fabricante afirma que ele deixou a empresa em janeiro de 2026 e não devolveu imediatamente um computador corporativo. A Apple também acusa Liu de ter explorado uma falha de autenticação para acessar sistemas internos e baixar arquivos confidenciais depois de sua saída.
Outro personagem importante é Tang Yew Tan, atual responsável pela área de hardware da OpenAI e ex-executivo da Apple. A fabricante afirma que Tan teria levado informações relacionadas a fornecedores e orientado candidatos durante processos seletivos a apresentar componentes e informações relacionadas a produtos da Apple.
A Apple tenta conectar esses episódios à expansão da OpenAI no setor de dispositivos. A empresa argumenta que a movimentação de profissionais não seria o problema em si, mas que informações obtidas durante o trabalho na Apple poderiam ter sido utilizadas para acelerar o desenvolvimento de produtos concorrentes.
A disputa por segredos industriais está ligada ao hardware de IA
O contexto tecnológico explica por que o processo ganhou proporções tão grandes.
A OpenAI deixou de ser apenas uma empresa de modelos de inteligência artificial. A companhia ampliou sua atuação em hardware após incorporar a io Products, empresa criada por Jony Ive, antigo chefe de design da Apple, e passou a contratar profissionais especializados em engenharia e desenvolvimento de dispositivos.
Isso coloca a OpenAI em uma área na qual a Apple possui décadas de conhecimento acumulado.
Informações sobre componentes, fornecedores, processos industriais, sistemas de energia, arquitetura eletrônica e design de produtos podem representar vantagens competitivas significativas. Um detalhe aparentemente pequeno em um projeto pode economizar meses de desenvolvimento ou evitar erros caros durante a fabricação.
Por isso, a Apple sustenta que não pode simplesmente esperar o andamento normal do processo. Se a OpenAI estiver desenvolvendo produtos com informações obtidas irregularmente, cada nova etapa do projeto poderia tornar o suposto dano mais difícil de reverter.
A situação também mostra como a disputa pelo futuro da computação está mudando. A próxima geração de produtos de IA pode não depender apenas de aplicativos instalados em smartphones. Dispositivos dedicados, interfaces naturais e agentes de IA podem criar uma nova categoria de hardware.
OpenAI rejeita acusações e questiona a segurança da Apple
A OpenAI apresentou uma defesa bastante diferente. A empresa nega ter utilizado segredos comerciais da Apple e afirma que o processo é baseado em informações falsas, desnecessárias e excessivamente agressivas. A companhia também pediu que a ação seja rejeitada.
Um dos principais argumentos da OpenAI envolve justamente a forma como a Apple protegia suas próprias informações.
A empresa de IA afirma que funcionários da Apple podiam utilizar contas pessoais do iCloud para atividades relacionadas ao trabalho e que os procedimentos de desligamento não teriam revogado imediatamente determinados acessos. Para a defesa, essas práticas enfraquecem a alegação de que as informações possuíam o nível de proteção necessário para serem juridicamente consideradas segredos comerciais.
A estratégia é relevante porque uma informação não se transforma automaticamente em segredo comercial apenas porque uma empresa a classifica como confidencial. A legislação exige, entre outros elementos, que o proprietário tenha adotado medidas razoáveis para preservar o sigilo.
A OpenAI também tenta separar a contratação de profissionais da acusação de apropriação indevida. Na visão da empresa, contratar engenheiros e executivos experientes é uma prática legítima do mercado e não significa automaticamente que o conhecimento profissional adquirido por essas pessoas pertença à antiga empregadora.
Apple contra OpenAI: o que pode acontecer agora
O caso deverá avançar em uma disputa jurídica sobre quais provas podem ser obtidas e com que velocidade. A Apple quer acesso antecipado a informações que considera fundamentais para sustentar seu pedido de liminar, enquanto a OpenAI tenta impedir uma investigação que considera ampla e desproporcional.
A audiência mais importante está marcada para 1º de outubro de 2026, perante o juiz federal Edward J. Davila, do Distrito Norte da Califórnia.
O resultado poderá estabelecer limites importantes para futuras disputas envolvendo mobilidade de funcionários, propriedade intelectual e desenvolvimento de produtos de IA.
Se a Apple conseguir autorização para uma investigação forense ampla, poderá obter evidências capazes de fortalecer significativamente sua ação. Se a OpenAI prevalecer em suas objeções, a Apple terá de sustentar suas acusações com um conjunto de provas mais limitado.
Independentemente do resultado, a disputa revela uma realidade cada vez mais evidente: talentos, dados e propriedade intelectual estão se tornando ativos tão estratégicos quanto os próprios modelos de inteligência artificial.
E existe ainda uma dimensão competitiva. Enquanto Apple e OpenAI disputam nos tribunais, ambas estão tentando definir quem terá maior influência sobre o próximo formato de computação pessoal. O conflito jurídico, portanto, não é apenas sobre arquivos supostamente copiados. É também sobre quem poderá transformar a inteligência artificial em uma nova plataforma de hardware.
