Falha de segurança no COLDCARD expõe US$ 88 mi em Bitcoin

Escrito por
Jardeson Márcio
Jardeson Márcio é Jornalista e Mestre em Tecnologia Agroalimentar pela Universidade Federal da Paraíba. Com 8 anos de experiência escrevendo no SempreUpdate, Jardeson é um especialista...

Entenda o bug no RNG do COLDCARD e veja como proteger suas criptomoedas.

A falha de segurança COLDCARD colocou em alerta uma das comunidades mais exigentes do universo das criptomoedas. Consideradas por muitos como referência em armazenamento offline de Bitcoin, as hardware wallets da Coinkite passaram a enfrentar uma das situações mais delicadas de sua história após a descoberta de um erro crítico no processo de geração de números aleatórios (RNG). O problema permitiu que invasores reconstruíssem frases-semente vulneráveis e realizassem um ataque automatizado que já resultou no roubo de aproximadamente US$ 88,6 milhões (cerca de R$ 449,6 mi) em Bitcoin.

O caso chamou a atenção não apenas pelo prejuízo financeiro, mas principalmente porque atingiu justamente um dos pilares da segurança de uma carteira de hardware: a geração de chaves criptográficas verdadeiramente aleatórias. Quando esse processo falha, toda a proteção física do dispositivo deixa de ser suficiente, já que um atacante pode reproduzir matematicamente a mesma chave privada utilizada pela vítima.

Neste artigo, você entenderá como ocorreu a vulnerabilidade, quais modelos do COLDCARD foram afetados, por que o erro no MicroPython comprometeu a segurança do firmware e quais medidas devem ser tomadas imediatamente para proteger seus ativos digitais.

A falha de segurança COLDCARD e o impacto de US$ 88,6 milhões

A investigação conduzida por pesquisadores da Galaxy Research, em parceria com especialistas da Chainalysis, revelou que o ataque foi muito mais sofisticado do que inicialmente parecia.

Em vez de comprometer diretamente os dispositivos das vítimas, os criminosos exploraram uma deficiência na geração das frases-semente (seed phrases) criadas durante a configuração inicial de determinadas versões do firmware.

Na prática, o grupo desenvolveu um sistema capaz de reconstruir combinações de sementes previsíveis produzidas pelo firmware vulnerável. Depois disso, bastava monitorar continuamente a blockchain do Bitcoin em busca de endereços compatíveis.

Assim que uma carteira contendo saldo era identificada, os fundos eram transferidos quase instantaneamente.

Os pesquisadores identificaram um padrão extremamente consistente nas transações realizadas pelos criminosos:

  • utilização de taxa fixa de aproximadamente 30 sat/vB;
  • ausência de endereço de troco, indicando movimentação integral dos ativos;
  • automatização completa da seleção das vítimas;
  • prioridade para carteiras com maiores saldos;
  • consolidação dos Bitcoins roubados em endereços controlados pelos atacantes.

Esse comportamento permitiu aos analistas identificar milhares de movimentações relacionadas à campanha.

Segundo a investigação, o prejuízo acumulado ultrapassa US$ 88,6 milhões, tornando este um dos maiores incidentes já registrados envolvendo uma vulnerabilidade em hardware wallets de Bitcoin.

Embora o ataque tenha exigido conhecimento técnico avançado, sua execução tornou-se altamente escalável após a identificação das sementes previsíveis.

bitcoin

A causa técnica da falha de segurança COLDCARD

O problema não estava no algoritmo criptográfico utilizado pelo Bitcoin, nem na implementação do padrão BIP-39.

A vulnerabilidade surgiu durante a integração entre a biblioteca ngu.random, responsável pela obtenção de entropia criptográfica, e o ambiente MicroPython utilizado pelo firmware do COLDCARD.

O erro no RNG de hardware

Em condições normais, o firmware deveria obter números aleatórios diretamente do gerador físico (Hardware RNG) presente no microcontrolador STM32.

Esse componente foi projetado justamente para fornecer entropia adequada à criação de chaves criptográficas.

Entretanto, devido a uma falha de integração, determinadas chamadas da biblioteca ngu.random deixavam de utilizar o gerador físico.

Como consequência, o sistema recorria automaticamente ao mecanismo de fallback existente no MicroPython.

O problema é que esse fallback utilizava o algoritmo Yasmarang, um gerador pseudoaleatório criado para aplicações comuns de software, e não para gerar material criptográfico de alta segurança.

Por que o Yasmarang não era suficiente

O algoritmo Yasmarang jamais foi desenvolvido para proteger bilhões de dólares em ativos digitais.

Seu estado interno pode ser inicializado utilizando informações relativamente previsíveis do sistema.

Entre elas estavam:

  • identificadores do microcontrolador;
  • temporizadores internos;
  • estados conhecidos da inicialização.

Embora esses elementos variem entre dispositivos, eles não possuem a imprevisibilidade exigida para gerar uma chave privada de Bitcoin.

Na prática, isso reduziu drasticamente o espaço de busca necessário para reconstruir diversas frases-semente.

Em vez de enfrentar um problema matematicamente impossível, os atacantes passaram a trabalhar com um conjunto suficientemente pequeno para ser explorado com grandes clusters computacionais.

É justamente por isso que a aleatoriedade criptográfica é considerada um requisito absoluto em qualquer implementação do padrão BIP-39.

Uma pequena redução na entropia pode comprometer completamente a segurança da carteira.

Dispositivos afetados e versões corrigidas da falha de segurança COLDCARD

A vulnerabilidade afetou diversos modelos da família COLDCARD.

Entre eles estão:

  • COLDCARD Mk2
  • COLDCARD Mk3
  • COLDCARD Mk4
  • COLDCARD Mk5
  • COLDCARD Q

Após a divulgação responsável da vulnerabilidade, a Coinkite publicou atualizações de firmware eliminando o comportamento incorreto da biblioteca ngu.random e restaurando o uso obrigatório do Hardware RNG presente no STM32.

As versões mais recentes do firmware corrigem o defeito de geração de entropia.

Entretanto, existe um detalhe extremamente importante.

Atualizar o firmware não torna segura uma frase-semente criada anteriormente durante o período em que o bug estava presente.

Caso a seed tenha sido gerada utilizando um firmware vulnerável, ela permanece vulnerável para sempre.

Essa é uma característica inerente ao funcionamento das chaves criptográficas.

Como proteger seus fundos após o bug de RNG no COLDCARD

Especialistas recomendam que usuários potencialmente afetados realizem uma migração completa de seus ativos.

Esse procedimento deve ser feito com bastante cuidado.

1. Confirme seu backup

Antes de qualquer alteração, confirme que sua frase de recuperação atual está corretamente armazenada.

Jamais inicie qualquer procedimento sem possuir um backup funcional.

2. Atualize o firmware

Instale imediatamente a versão mais recente disponibilizada pela Coinkite.

Essa atualização impede que novas sementes vulneráveis sejam geradas.

Contudo, ela não corrige seeds antigas.

3. Gere uma nova frase-semente

Após atualizar o dispositivo, inicialize uma carteira completamente nova.

Essa nova seed deverá ser criada utilizando o firmware corrigido.

Especialistas também recomendam utilizar fontes adicionais de entropia, como os conhecidos dice rolls, que adicionam aleatoriedade manual durante a criação da carteira.

4. Teste a recuperação

Antes de movimentar qualquer Bitcoin, realize um teste completo de restauração utilizando a nova frase-semente.

Esse procedimento garante que o backup foi anotado corretamente.

5. Transfira todos os ativos

Somente depois de validar a nova carteira realize a transferência integral dos Bitcoins.

Não reutilize endereços associados à seed vulnerável.

Exceções importantes

Usuários que geraram suas frases-semente utilizando dice rolls ou outras fontes externas robustas de entropia podem não estar expostos ao mesmo nível de risco.

Da mesma forma, implementações que combinam o BIP-39 com uma passphrase forte adicionam uma camada extra de proteção, tornando significativamente mais difícil a exploração prática da vulnerabilidade.

Ainda assim, especialistas recomendam avaliar cuidadosamente cada caso e considerar a migração preventiva.

O futuro da segurança em hardware wallets e o aprendizado com o caso

A vulnerabilidade representa um importante lembrete para toda a indústria de carteiras de hardware.

Mesmo dispositivos reconhecidos por seu alto nível de segurança podem apresentar falhas quando há erros de integração entre bibliotecas, firmware e componentes físicos.

O incidente também reforça a importância das auditorias independentes, da transparência em projetos open source, da validação contínua dos mecanismos de geração de entropia e da existência de múltiplas fontes de aleatoriedade para reduzir riscos.

A resposta conjunta da Coinkite, da Galaxy Research e de pesquisadores independentes demonstra como a colaboração entre fabricantes e especialistas em segurança continua sendo fundamental para identificar rapidamente vulnerabilidades críticas e minimizar seus impactos.

Para os usuários, a principal lição é clara: manter o firmware atualizado é indispensável, mas não substitui boas práticas de gerenciamento de chaves, backups seguros, validação periódica das frases-semente e uso de mecanismos adicionais de entropia sempre que possível.

Se você utiliza uma hardware wallet COLDCARD, vale a pena verificar imediatamente a versão do firmware, confirmar quando sua seed foi criada e, caso exista qualquer dúvida sobre a segurança da geração inicial, realizar uma migração preventiva. Em um cenário onde milhões de dólares podem depender da qualidade de um gerador de números aleatórios, a prevenção continua sendo a defesa mais eficiente.

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Jardeson Márcio é Jornalista e Mestre em Tecnologia Agroalimentar pela Universidade Federal da Paraíba. Com 8 anos de experiência escrevendo no SempreUpdate, Jardeson é um especialista em Android, Apple, Cibersegurança e diversos outros temas do universo tecnológico. Seu foco é trazer análises aprofundadas, notícias e guias práticos sobre segurança digital, mobilidade, sistemas operacionais e as últimas inovações que moldam o cenário da tecnologia.